"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O poder da Comunicação: um olhar sobre o profissional de Administração


(Trabalho acadêmico conceituado com a nota máxima pela Profª Jacqueline Andrade, revisora da Revista de Administração da Universidade Federal da Bahia - UFBA e UNEB - Universidade do Estado da Bahia)


Qualquer administrador que almeja ser considerado apto a gerenciar as empresas contemporâneas deve, antes de mais nada, compreender que seu perfil profissional precisa englobar um somatório de características. Novas configurações de mercado demandam novos preceitos de administração estratégica. Neste sentido, a comunicação se traduz como uma ferramenta poderosíssima, contudo não há vislumbre de sucesso para o profissional de administração que se encontrar em deficiência neste campo, pois segundo Penteado (1990) pode ser atribuída com razoável margem de segurança à maior ou menor capacidade de comunicação entre os povos, o nível de progresso das sociedades humanas e, ainda, Gilbert Highet (apud PENTEADO 1990) afirma que não há uma só atividade humana que não possa ser afetada ou promovida por intermédio da Comunicação.

Um retrocesso às origens da ciência administrativa nos dá uma visão geral da evolução de suas teorias a partir das transformações vividas por aqueles que ocupam o topo da pirâmide corporativa. Taylor e seu conceito do Homo Economicus ergueu à época, o que hoje conhecemos como uma das barreiras na Comunicação. O traço mais marcante da Escola Clássica da Administração era a visão do homem como máquina e liderar se resumia aos esforços de comandar e supervisionar. Posteriormente, a Escola das Relações Humanas trouxe consigo a assertiva de que o homem é um ser social e essa consciência adicionou outras palavras ao “vocabulário administrativo” fazendo com que a motivação fosse vista além do estímulo monetário. As teorias mais modernas apontam que é imprescindível ao sucesso empresarial o comando de um líder excepcional, mas o que toda literatura disponível sobre este tema aborda, por assim dizer, senão uma melhora nas habilidades comunicativas deste indivíduo?

Um estudo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileira de Geografia e Estatística) aponta que quase a metade das empresas brasileiras fecha as portas após seu terceiro ano de atividade e que a principal razão do fracasso desses empreendimentos continua sendo a falta de preparo de seus gestores. Desde a segunda Revolução Industrial o mercado tem anunciado que não há mais espaço para trabalhadores superespecializados, bem como o reconhecimento (infelizmente tardio em nosso país) da Administração como profissão veio ratificar que profissionais de outras áreas não estão aptos a seu exercício.

Em certa ocasião, um professor universitário disse a seus alunos do curso de Administração de Empresas, logo em seu primeiro dia de aula que, se alguém dentre os presentes não gostasse de ler, havia escolhido a profissão errada. O motivo que levou o ilustre educador a lançar sobre seus pupilos tais palavras é óbvio: conhecimento é poder e como adquiri-lo sem a prática da leitura? É certo que existem fontes alternativas de informação cujo desfrute não se dá, necessariamente, pelo ato de ler, entretanto são incontestáveis as benesses que acompanham a todo aquele que o pratica: quem lê fica mais informado, melhora seu vocabulário, entende as coisas com mais facilidade, dentre outros.

Como afirmado no parágrafo anterior, conhecimento é poder e, neste sentido, escreveu Torquato Gaudêncio:

Se alguns poderes legitimam a empresa, a comunicação exerce igualmente um certo e grande poder. A propósito lembramos o pensamento de Karl Deustsch, que mostra o poder como a possibilidade de uma pessoa ou entidade gerar influência sobre outrem. A comunicação que, enquanto processo, transfere simbolicamente ideias entre interlocutores, é capaz de, pelo simples fato de existir, gerar influências. E mais: exerce, em sua plenitude, um poder que preferimos designar de poder expressivo, legitimando outros poderes existentes na organização, como o poder remunerativo, o poder normativo e o poder coercitivo [...]. A comunicação como processo e técnica, fundamenta-se nos conteúdos de diversas disciplinas do conhecimento humano, intermedia o discurso organizacional, ajusta interesses, controla os participantes interno e externo, promove, enfim, maior aceitabilidade de ideologia empresarial. Como poder expressivo, exerce uma função-meio perante outras funções-fim da organização. Nesse sentido, chega a contribuir para a maior produtividade, corroborando e reforçando a economia organizacional.

O poder expressivo das empresas viabiliza o processo burocrático, adicionando elementos expressivos emotivos e inferências ás rígidas posturas hierárquicas, e tornando o ato de administrar não apenas uma relação mecânica entre posições do organograma, mas uma relação social positiva dentro da visão de que o trabalho é um bem dignificante e de que a Economia e a Administração não são ciências exatas mas, sobremodo, ciências humanas [...].



Diante do exposto, conclui-se que as palavras de Gilbert Highet citadas no primeiro parágrafo somadas às afirmações tão bem embasadas por Torquato Gaudêncio na citação acima ratifica o quão poderosa a Comunicação é e que esta se encontra presente em níveis muito mais significantes do que se imagina, tanto na teoria administrativa quanto na figura/perfil do administrador que, quanto mais comunicativo for, mais poderoso e mais bem sucedido será em suas empreitadas. Dito isso, vale a pena reproduzir aqui um princípio considerado chave por Torquato no que tange ao amálgama da Comunicação: “Os bons administradores são aqueles que conseguem produzir significações, tanto quanto dinheiro”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


RÊGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Comunicação Empresarial/Comunicação Institucional: conceitos, estratégias, sistemas, estrutura, planejamento e técnicas, Summus, 1986.

PENTEADO, J. R. Whitaker. A Técnica da Comunicação Humana,Thomson Pioneira,14ª Edição, 1990.


Casa Vazia

A casa está vazia porque o amor não mora mais nela. Ele levou os móveis, mas deixou as cortinas. Elas balançam ao sabor do vento denunciando quão grande é aquele lugar, quão estreita é a habitação de um coração partido, que não sabe agora o que fazer com o tempo.

Pobre casa repudiada que um dia já foi tão amada. Seu destino agora é vagar. Que lhe importa o sol escaldante ou a chuva fina, que deixa a grama mais verde; que lhe importa o ocaso, o breve instante em que o céu se torna rubro para depois revelar o fundo escuro que se adorna de estrelas, astros estes que, na solidão, perdem a luz. Olhos daltônicos incapazes de ver as cores; lábios insípidos, fenda tão profunda em uma alma em trevas.

Lembranças dos dias felizes lhe cortam a carne, intensos açoites de algo que um dia foi e agora simplesmente não mais é: partiu, se perdeu, esvaiu-se como fumaça. A fidelidade é trapaceira, maléfica senhora, nômade, inconstante, mentirosa e manipuladora no coração que sangra com valores distorcidos, que expõe o que lhe abunda, tal como escrito está no livro do Rei, que comporta milhares de folhas e oxalá ajuntarmos  nós tão excelente tesouro para que vivamos.

Vida - formosa expressão; Biologia, Divino fôlego; conceitos. A casa vazia não sabe o que quer, pois morta deambula. Seu choro lhe retém as palavras cala seu grito na garganta, mas não lhe priva dos sentidos e tampouco dos ruídos; seus membros são pesadas correntes; seus instantes de paz, fugazes. Em torpor, seu eu se biparte. Futuro não há.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Organização na Organização*

O dicionário define o termo organização como sendo a ação ou efeito de organizar, de pôr a funcionar; estado do que se acha organizado; preparação; forma pela qual um Estado, uma administração, um serviço estão constituídos.

A organização vem acompanhando e facilitando a vida do homem desde o primórdio dos tempos. Pitágoras dizia que com organização e tempo acha-se o segredo de fazer tudo e bem feito. Neste aspecto, escreveu Silvia Somenzi[1]:


 

Utilizar-se da organização é mais que uma necessidade, é uma exigência mínima de mercado para que você seja considerando como membro de fato de uma equipe. A organização demonstra que você se preocupa com tudo em que está envolvido e principalmente, se preocupa com os outros, pois quem dela se utiliza:

- Sempre está seguro de que as informações, pelas quais é responsável, estão disponíveis a qualquer tempo;


- Cumpre suas tarefas e sabe onde está;

- Comanda os próprios movimentos sabendo muito bem da onde veio e para onde vai, e por fim,
 

- Tem consciência da importância daquilo que está fazendo e o impacto que tem sobre as atividades dos outros [...].

Quando a pessoa se organiza ou busca se organizar deixa claro para os outros que trabalha para o time e que não apenas está comprometida consigo mesma, e ainda expõe que pensa nos impactos que causa sobre as atividades dos outros.

Quem não entende isso e não se preocupa em se organizar, naturalmente acaba por ser excluído da equipe ou direcionado à execução de tarefas extremamente simples e operacionais, ou seja, de fácil substituição [...].

Atuar de forma organizada é como fazer uma aliança com os outros para crescer e ser percebido como um excelente apoiador do grupo...



Há os que entendem que organizar é seguir a risca um protocolo, o que pode parecer uma tarefa tediosa e excessivamente burocratizada, mas não se pode negar os benefícios de ter um norte a se seguir. O uso de padronizações gera resistência, contudo não haveriam referenciais se estas não existissem. Quero deixar claro, porém, que este relato não tem a intenção de vender a idéia de que organização significa tão somente cumprir a risca uma lista de procedimentos até porque a OSM nos ensina que a eficácia de um processo não se dá pela sua complexidade.


 

A organização, aqui se refererindo à sociedade hierarquizada, legalmente constituida, preocupada em agregar à sua missão e valores, as virtudes da clareza e da transparência, deve se preocupar em iniciar tal composição por sua hierarquia - uma clara exposição de seus níveis de escalonamento distribuídos em um modelo simples de organograma de modo que, tanto aos olhos do douto, quanto do leigo, transpareça, indubitavelmente o "quem é quem" e o "quem manda em quem". Tal realização é, na opinião desta bacharelanda, o ponto primaz para o alcance da excelência. Neste sentido, não se pode deixar de citar a participação da comunicação. É imperioso que os organizadores (leia-se também fundadores, gestores, gerentes, supervisores e afins) sejam bons comunicadores. Manuais, guias, esquemas e cartilhas são bem-vindos e tem cada um sua hora e lugar, por conseguinte transmissões verbais daquilo que se almeja (o onde, o quando e o como) acontecerão em larga escala. A fala, segundo Aristóteles, tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e portanto também o justo e o injusto. A clareza, a concisão, o interesse e a obtenção do feed-back, constituem os requisitos para uma comunicação eficaz.


A organização na organização também pode ser obtida pela monta de um time coezo a começar pela própria gestão. Jim Collins [2], em sua obra intitulada Empresas Feitas Para Vencer, discorre sobre a importância de ter as pessoas certas no barco antes mesmo de saber que rumo tomar e  acredito eu estar implícita aí a formação de uma equipe onde todos falem a mesma língua.  Já James C. Hunter [3], autor de O Monge e o Executivo, provavelmente se oporia a tal questão por entender que homegeneidade demais atrapalha o desenvolvimento do grupo, contudo não se pode negar as benesses de um relacionamento com nossos "iguais". Os exemplos mais comuns de barreiras na comunicação praticamente não existiriam. Além disso, outros fatores essenciais devem ser levados em conta tais como a estratégia, os recursos, habilidades e a cultura organizacional, merecendo esta especial atenção já que consiste na reunião das convicções, valores, atitudes e regras compartilhadas entre os individuos de uma corporação, moldando seu comportamento e expectativas. Um administrador deve zelar pela sanidade da cultura que rege sua corporação tanto quanto preocupa-se com sua saúde financeira.  Qualquer sinal de enfermidade deve ser arrancado pela raiz. Existem empresas relativamente prósperas, porém presas a uma cultura que negligencia o fator humano, atingindo principalmente os colaboradores que ocupam as partes mais baixas da escala hierárquica. Outras são fundadas já com base neste mesmo mal e sequer sobrevivem ao seu primeiro ano. Muitos primam pelo foco nas ameaças e oprtunidades, pela análise do micro e macro ambiente, em neutralizar ou restringir a concorrência, entretanto poucos se importam com o que se comunica aos níveis hierárquicos inferiores e aqui digo comunicar não no sentido de tornar comum; informar e sim no que se comunica aos colaboradores de forma não verbal, acerca de seu valor; importância. Desqualificações podem transformar o ambiente profissional em verdadeiras "selvas" onde impera a lei do mais forte, culminando em combates psicólogicos desgastantes em prol da sobrevivência e em detrimento das metas/objetivos organizacionais. Uma empresa que almeja um patamar de organização excelente e inteligente deve ter em mente que esta propicia um ambiente favorável a seu desenvolvimento, juntamente com seus colaboradores, justificando assim sua importância na formulação das estratégias empresariais. O processo exige paciência e perseverança, bem como, a depender do contexto, até uma dose de parcimônia.




  

Referências:


 

[1] http://www.baguete.com.br/colunistas/colunas/50/silvia-somenzi/25/06/2007/por-que-e-importante-ser-organizado acesso em 03/09/2012.


 

[2] COLLINS, Jim. Empresas Feitas Para vencer, Campus. 2001


 

[3] HUNTER, James C. O Monge e o Executivo, Sextante. 2004


 

*Agradeço especialmente às Adm. Daniela Cardoso e Evelim Sousa pela colaboração neste trabalho.


 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Crentes fariseus

Dois homens subiram ao templo, a orar; um fariseu,  e o outro, publicano. O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos de tudo quanto possuo. O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! (Lc 18-10;13)

Sentiu a diferença? Se continuássemos a leitura, veríamos no verso 14 Cristo nos dizendo que quem desceu justificado para sua casa foi o publicano. Alguém aí do outro lado, poderia parar e me perguntar: "Ei, Ju, porque estas coisas acontecem? Por que os crentes não são todos iguais?" Boa pergunta, mas a resposta está na própria Palavra de Deus. Veja o que está escrito em Mt. 13-18;23:

Escutai vós, pois, a parábola do semeador. Ouvindo alguém a palavra do reino e não a entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho; porém o que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo; antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende; e o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra e fica infrutífera; mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro, sessenta, e outro, trinta.

Esta passagem, em minha opinião, é a que melhor responde a questão acima. Há outras citações bíblicas que podem servir de ilustração para tal fato, porém esta é o que mais chama a atenção porque no verso 22, já no finalzinho, olha que interessante, Cristo diz: "... sufocam a palavra e fica infrutífera..."  Entenderam? Se não, aqui vai uma ajudinha: note que toda a parábola se norteia, não só no tipo de terreno em a semente cai, mas também em quão profunda foi a recepção. Matheus 7 nos ensina que o homem que edificou a sua casa na rocha sobreviveu aos que contra ela combateram. O contrário acontece com o homem que edificou a sua sobre a areia. Assim sendo, os tipos de terreno ilustram o contexto, as circunstâncias em que o evangelho chega até nós. O diabo, o inimigo de nossas almas, já está condenado e ele não tem mais nada a fazer, além de trabalhar a fim de levar o maior número de pessoas consigo à condenação eterna. A pessoa que escolhe seguir a Cristo será alvo de inúmeras investidas malignas com o intuito de faze-la desistir. O sucesso ou fracasso do inimigo nesta empreitada vai depender apenas de nós. "... Se alguém quer vir após mim, negue-se a  si mesmo, e tome a cada dia sua cruz, e siga-me." - disse Jesus em Lc. 9-23. Que ninguém vos engane, meus amigos, evangelho é cruz! Cruz significa sofrimento. Mole é Maria Mole! Tem gente por aí que acha que os cristãos, pela sua forma pacífica de viver, são frouxos, contudo mal sabem estes que as boas novas de Cristo não são para covardes.

Até aqui, tudo bem, entretanto, alguém poderia sentir-se impelido a me inquirir mais uma vez perguntando: "O que faço então para vencer as astutas ciladas do diabo e impedir que a palavra seja sufocada em mim? Como saber se não estou me tornando um crente fariseu? A resposta a essas duas indagações, da mesma maneira que a primeira, está na bíblia e, novamente, chamo vossa atenção para o destaque a parte final do verso 22 de Mateus 13. O alimento do crente é a palavra de Deus. Por seu intermédio ele nasce (Rm 10-17), é santificado (Jo 17-17), bem como transformado na renovação de seu entendimento. A Palavra não pode ser sufocada em nós, ela tem que frutificar!

Crentes fariseus existem porque muitos deles ainda não entenderam que o pior inimigo de um crente pode ser ele mesmo. Deus não anula nossa personalidade, Ele a molda. Há cristãos que iniciam sua caminhada crescendo em graça e sabedoria, mas depois caem ou estagnam por causa do orgulho. Bastam um ou dois elogios ou até mesmo a ascensão a um cargo na administração eclesiástica para que aquele irmãozinho ou aquela irmãzinha  fique com o "rei na barriga". Outros desenvolvem características farisaicas porque interpretam equivocadamente certos conselhos bíblicos. Quando Deus diz para sermos fortes e termos bom ânimo, isso não quer dizer pintar um "S" no peito e bradar aos quatro ventos que somos super crentes. Não há mal algum chorar ou ficar contristado. Vejamos o exemplo do rei Davi. Na maioria dos salmos que ele compôs, percebemos o quão agoniado se encontrava o seu espírito, contudo sua atitude era a de louvor. Um semblante abatido não é um termômetro para nossa fé. Emoções pertencem a carne, já a fé, por sua vez, é algo do Espírito. A bíblia diz que a carne e o espírito duelam todo o tempo. Vencerá o cachorrinho que melhor for alimentado. Somos iguais, em Cristo aos olhos de Deus; não interessa quem chegou agora ou quem está na fé desde que nasceu. Examinemos Mateus 20-1;16:

Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha.
E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha.
E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça,
E disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram.
Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo.
E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos, e perguntou-lhes: Por que estais ociosos todo o dia?
Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha, e recebereis o que for justo.
E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando pelos derradeiros, até aos primeiros.
E, chegando os que tinham ido perto da hora undécima, receberam um dinheiro cada um.
Vindo, porém, os primeiros, cuidaram que haviam de receber mais; mas do mesmo modo receberam um dinheiro cada um.
E, recebendo-o, murmuravam contra o pai de família,
Dizendo: Estes derradeiros trabalharam só uma hora, e tu os igualaste conosco, que suportamos a fadiga e a calma do dia.
Mas ele, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço agravo; não ajustaste tu comigo um dinheiro?
Toma o que é teu, e retira-te; eu quero dar a este derradeiro tanto como a ti.
Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?
Assim os derradeiros serão primeiros, e os primeiros derradeiros; porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.

Atitudes farisaicas entre membros de uma congregação e até mesmo entre cristãos de denominações diferentes, não é bíblicamente correto. Encaixa-se neste perfil de semelhante forma, aquele que quer orar por todo mundo, mas não pede oração a ninguém, bem como os que gostam de exortar, mas não querem ser exortados. Não foi isso que Cristo nos ensinou, ao contrário, Ele disse:

Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; 1 Pedro 1:22

Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Gálatas 5:13

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. João 15:12

Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. Romanos 12:10

Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. João 13:34

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. João 13:35

Se você é um discípulo de Cristo, ame! Sei que não é fácil "cair de amores" por alguém da noite para o dia, mas o que Jesus ordenou é que esse amor seja praticado. Isso se chama práxis e consiste em um conjunto de atitudes positivas para com os que nos odeiam e perseguem. Agindo assim, o amor virá com o tempo.

Não sei que efeito este estudo terá em você meu leitor, mas caso tenha sido tocado ou incomodado pelo Espírito, meu conselho, ou melhor, minha sugestão é uma só: Palavra! Leia, estude, medite, se alimente, viva a Palavra de Deus! Só instruídos em justiça é que poderemos nos apresentar a Deus como obreiros aprovados. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Filosofia de Estréia

Seria muito mais fácil se eu fosse um de meus personagens: poderia viver entre as flores, dormir em meio às estrelas, voar... Consertar o mundo com minha caneta seria uma peripécia e tanto, mas as muitas letras não me foram dadas para meu proveito; minha missão é outra e minha filosofia de vida é prosseguir até em casa, descalça, enquanto os outros vislumbram o par de sandálias em minhas mãos. O que me aconteceu? Nada. Eu cresci, sou gente grande agora deixei para trás as coisas de menino.
Escreverei aqui inspirada por dias felizes, dias tristes ou em dias de sabedoria, como hoje, onde afirmo que vejo e sinto como todo mundo, apesar de o mundo não me tratar como se eu fosse do mundo.
Sou amiga e tenho inimigos, e tem também aqueles que deixei encarcerados num meio termo, porque são tóxicos. Nietzsche disse que quem vive de combater um inimigo tem interesse em deixa-lo com vida, eu não. Meu combate é com o inimigo de minh’alma, que brama a meu redor, como a um leão, procurando a quem tragar. Estou longe de ser boa, só há um bom que é Deus, meu conhecido há uma década e a quem prossigo conhecendo. Ele tem me ensinado a amar e a exercitar a práxis independente do parco número dos que me amam. Não fico triste, pois não creio em sina, creio em escolhas, em chamado, em vocação, em ministério; o meio pressiona, entretanto concordo com o Gabriel: “nenhuma rua é sem saída para quem sabe olhar pra trás”.
Eu não presto. Não presto porque não tenho a “doença do piolho”, porque não tô nem aí para o que vai acontecer na novela. Tenho mais o que fazer. Tenho que viver e me recuso a faze-lo sem filosofar, semelhante a Descartes que comparou tal proceder com o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir.

domingo, 23 de setembro de 2012

Lavagem Cerebral

Na semana passada, tive a rica oportunidade de ouvir da boca de uma pessoa muito querida palavras que expressaram carinho e admiração. Foi algo que me fez muito bem, contudo minha surpresa foi maior quando esta pessoa me revelou que tinha preconceito em relação aos cristãos. Sei que o povo de Deus vem sendo odiado e perseguido há tempos, porém não imaginei que aquele colega padecesse desse mal, levando em conta seu nível intelectual. Alguém aí do outro lado pode argumentar me dizendo que intelectualidade não quer dizer coisa alguma, até porque não existe só um tipo de inteligência. Este relato também não tem a intenção de julgar se está este meu conhecido certo ou errado em cultivar idéias pré-concebidas (pois é essa é a forma como podemos definir, a grosso modo, o que preconceito quer dizer) mas sim ilustrar o que me pôs a pensar em tal fenômeno, mais especificamente, como esse tipo de coisa pode nascer e se propagar e é aí que entra a expressão que dá nome a está postagem: lavagem cerebral .

Não me recordo como e nem quando esta passou a fazer parte do meu vocabulário. Lembro-me entretanto de que era algo que me assustava ao extremo, pois eu imaginava que se tratava de uma sessão de tortura, algo do tipo: trancar uma pessoa em um cômodo, ata-la e depois submeter o seu entendimento a qualquer composto químico (ou até mesmo a hipnose) que no final a tornaria adepta de alguma seita ou simpatizante de alguma outra ideologia esdrúxula. Só anos mais tarde é que li em algum lugar que lavagem cerebral é um esforço que visa premir as atitudes e crenças de outrem. Nasci em um lar católico e antes da luz do Evangelho de Jesus Cristo entrar em minha vida, eu julgava que os crentes em geral haviam sofrido tal procedimento e era por isso que não eram católicos. Graças a Deus, hoje eu sei o que igreja significa e, de semelhante maneira, compreendo que Cristo não voltará para buscar esta ou aquela denominação, mas sim, a nação santa, o sacerdócio real, o povo escolhido.

Quanto ao que se pensa dos cristãos, a coisa não mudou de figura e muitos ainda julgam a sua diferente maneira de viver como uma reprogramação patrocinada pelos espertalhões interessados em aproveitar-se da fé alheia - leia-se financeiramente. É claro que esse tipo de gente existe, mas não se pode generalizar. Nesse sentido, muitos do que tem essa opinião, acredito eu, nunca pararam para refletir se também não foram "programados" a pensar dessa maneira.  É fato: todo sistema influencia e é influenciado. O perigo está   em quem ou o que vem exercendo influência no meio em que vive. Certa feita, um grupo de conhecidos meus discutiam acerca de uma suposta declaração de um famoso pregador do evangelho sobre o dízimo. É claro que os ânimos estavam exaltados, pois é um "absurdo" qualquer fiel ofertar um real para mantimento da casa de Deus, contudo estas mesmas pessoas não admitem críticas sobre o quanto gastaram em álcool em um único fim de semana, sob a alegação de que "o dinheiro é meu, faço dele o que bem entender" (?!). Ouvi tudo o que eles diziam, à princípio, sem me meter, porém em um dado momento, pedi permissão e desculpas por me intrometer na conversa e lhes exortei a mudar de tática. O homem de quem falavam é alguém de grande relevância, não só no Brasil e, assim sendo, aconselhei-os a lerem a palavra de Deus se interessados estivessem em combate-lo, pois só na bíblia eles encontrariam os argumentos certos a fim de condenar suas atitudes, uma vez que as palavras que vinham saindo de sua boca, até então, vinham sendo inspiradas pela avareza. Sabe o que eles me responderam? Nada!! Silêncio total! Não sou melhor que nenhum deles, todavia é sabido que contra fatos, não há argumentos.

A maioria da população não aceita a visita de um cristão em sua casa, porque temem a tal "lavagem cerebral" mas sentam em frente a TV todos os dias e contemplam a teledramaturgia ensinando que ninguém é de ninguém e depois desejam que seus parceiros levem a sério o relacionamento. O velho adágio continua a valer: "pimenta nos olhos dos outros é refresco". É muito engraçado ver na novela das oito, o homem que tem três esposas e gargalhar com o modo pelo qual elas digladiam entre si. Apesar disso, ninguém quer levar "chifre".    O adultério continua desfazendo muitos casamentos.

O que se vê hoje é um sistema de comunicação em massa interessado em difundir uma cultura cancerígena de extermínio e inversão de valores cruciais igualzinha àquela propaganda que visa influenciar o comportamento do consumidor buscando que esse se interesse em consumir o produto anunciado. Que bom seria se a mídia só existisse com tal intuito! Alguém diria: "dos males, o menor." Todavia, tem gente se aproveitando dos analfabetos emocionais, incapazes de ler as entrelinhas. Isso sim é o que pode ser considerado lavagem cerebral ou, até mesmo, mensagens subliminares. A degradação dos valores morais gera violência e isso não sou eu quem digo e sim as ciências sociais. Em Lamentações de Jeremias, no capítulo três, verso vinte e dois está escrito que as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos. Alguém ainda duvida que Deus existe? Glórias a Ele, pois sem Ele a humanidade já teria suicidado.

Ódio aos judeus, aos negros, aos homossexuais, aos cristãos, aos latinos, aos mestiços, ódio, ódio, ódio! Tudo isso começa sempre com um sujeito boa pinta loquaz e persuasivo. De início, parece alguém inofensivo, mas só depois que, parafraseando um amigo meu, o dragãozinho de três olhos está bem cevado e crescido o bastante para causar destruição é que se tem a noção do perigo. Se você leu, aqui mesmo neste blog, um texto que publiquei em fevereiro deste ano intitulado " A violência oculta" vai notar uma certa familiaridade entre os dois escritos. Sutilmente a sociedade tem sido todos os dias "lavada" de modo a disfarçar a presença de quem interessado está na desestruturação familiar, em afastar as pessoas de Deus, na promiscuidade, etc. Teoria da conspiração? Não sei, deixo a seu critério. Mas concluo chamando a atenção para o perigo dos estigmas nascentes nesse contexto: toda loira é burra, todo pastor é ladrão, japonês e chinês é tudo a mesma coisa e por aí vai.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Alma de Artista

É um troço assim, meio estranho;
Que vê beleza no nada e que cheira a saudade;
É doideira constante, que contraria, Psicologia,
E na tristeza produz. É aquela que afirma ouvir
A orquestra das rosas e com elas faz coro.

É um troço assim, meio surreal, psicodélico.
É a delinquente da gente, maluquice, sandice;
É melhor que a revolta, não disse?
É de quem a possui e em ninguém se pode plantar
É de nascença de berço, de começo,
Sem fim, mas de recomeço.

É um troço assim, meio falido, rico, de um ouro
Que não reluz, mas é fonte, nascente, poente e crescente,
De quem sente e em verbo traduz.

É da velha e da senhora, da fada e da criatura;
A verdade da caverna ou da ira futura, censura
Remédio não cura, bisturi não extrai, não sai;
Fica e complica, implica, isola, faz menção.

É um troço assim, abençoado, "amaldiçoado", isolado
De trocadilhos, de centavos e outros grados.
É um troço assim, meio eu, meio você, meio nós...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A velha casinha

Era uma vez uma velha casinha à beira do caminho. Ninguém sabia precisar há quanto tempo fora construída. Quem por ali passava só podia afirmar que esta existia desde sempre.

Da sua varanda podia-se ver tanto o nascer quanto o pôr-do-sol. Estava desabitada, mas mesmo assim uma grama fresquinha a cercava e flores cresciam aos pés da mureta de pedras fogueadas entrecortada por um também baixinho portão de madeira da cor do tempo. Seu telhado era de um vermelho que não se via mais. Cada pedaço dele fora moldado por alguém que não dominava a língua mãe; familiares daquela gente boa que tem vício na fala, segundo Oswald de Andrade. Estes dizem "mio" para milho, e "pió" para pior, mas são mais brasileiros que os da cidade grande, que os que nasceram na "capitá".

Por aquele caminho passava gente de toda gente e não havia este a quem a velha casinha não surpreende-se. Ninguém entendia porque o passar do tempo lhe fazia tão bem sem a interferência de um mantenedor e muito menos quem era seu jardineiro. Mas por que não prestigiar seus atributos? O vento sopra e não se sabe de onde ele vem , tampouco para onde vai, entretanto ninguém quer viver sem ele.

Era aquela casinha a inspiração dos poetas e dos menestréis. Incontáveis versos cantaram e encantaram o místico lugar. Artistas de rua a levaram para seus palcos e de seu estilo nasceu outras arquiteturas. A frondosa árvore a sua esquerda é morada para o passaredo que desperta o viajante que se acolhe da chuva debaixo do seu alpendre. Do seu interior ninguém desfruta; santuário que nem o pior dos vândalos se atreve a violar. Qualquer um que sonha se torna seu devedor: o boêmio, o poeta, o músico, o artesão, o lírico, o erudito, o multifacetário, o eclético, o filho e também o pródigo; os ébrios e os sóbrios são seus discípulos; uma voz que chama, mas em vão, pois muda é e calada muito fala já que corações ardem e bocas que enchem por causa dela.

Dizem que por muitos anos ali morou um homem de desconhecida origem e genealogia. Ele sorria para todos os que passavam, especialmente para as crianças. Seu rosto era sereno e seus cabelos brancos. Um suspensório lhe segurava as largas calças. Despertava a bondade e a compaixão dos que o viam, alguns como solitário, outros como a diferença em meio a tanta iniquidade.

Sua alma nunca se abatia, ignorava-se contudo em que ou em quem se baseava sua felicidade. "Cada um tem porquê viver", o anônimo um dia afirmou, mas tanto se pode buscar felicidade ao som da harpa como em meio a escuridão voluntária, visto que a janela marejada por múltiplas gotículas de chuva ou a uniformidade e harmonia do canto gregoriano, vazio do som das cordas e das teclas, é belo e ambos podem trazer paz e música ao fiel.

Marcou assim presença esse desconhecido e célebre senhor, que um dia desapareceu e quem o amava ainda nega que ele morreu, se foi; sua consciência assim se desfez e desse modo foi ele juntar-se aos que nada sabem, mas que a saudade faz crer que com bons olhos nos vigia do Céu, morada do Altíssimo, a quem se destina o retorno do espírito que Ele mesmo nos deu, para descrença do agnóstico e recusa do ateu.

A casinha, por sua vez, ali perdura.  Linda! Charmosa, sem artíficios. Seu  era uma vez, para nós, aqui termina, se feliz, não sabemos, mas ela existe! Levanta  e vê: branca, rosinha, caiada da cor que se imagina; cheia de estampas ou de muitas janelinhas.

sábado, 4 de agosto de 2012

Olhar maduro


Cabelos brancos, pele enrugada, sexagenária. Com dificuldade, calço meu par de tênis com detalhes rosa, presente de minha neta pré-adolescente. Em meu ipod, presente de outro neto, músicas do Roberto.

O sol está bonito, sete da manhã. Atravesso a rua de asfalto recapeado e chego ao calçadão. Ser banhada pelo astro rei me é necessário para produzir o tal do calciferol, que um dia alguém me explicou se tratar da vitamina D.

Meus passos são curtos, peso da idade; passos que já foram ágeis na corrida para não perder o metrô, para acudir o bebê trôpego em seus primeiros passos, para servir o marido, hoje saudoso, ontem faminto após uma longa jornada de trabalho; a nostalgia lamenta a perda do viço, porém o otimismo vislumbra o lado agradável: a marcha lenta me ajuda a melhor ouvir a melodia das vagas quebrando na praia e o granjear da ave cujo nome desconheço. Devagar meu prazer é prolongado pelo bater em meu rosto da brisa suave com cheiro de maresia; melhor admiro o moço bonito parecido com aquele da novela, que passa exibindo saúde. Dou bom dia ao jornaleiro que passa com a pilha das novas do dia.

À minha esquerda, porém, a visão não é tão bonita: vejo passar o endinheirado em seu Land Rover distraído falando ao celular e não vê o que sinaliza avisando que vai ultrapassar. Os pneus cantam a fim de evitar a batida e o ofendido xinga por entre a greta aberta do seu vidro escuro, alguém que não tem nada haver também pragueja e tal peçonha contamina a outros que lhe imitam o gesto com buzinadas e sinais obscenos. “Quanta grosseria!” - penso eu. Alguém pode pôr a culpa no estresse ou nas patologias psicossomáticas da modernidade, porém vem a dúvida: se o fim da modernidade é trazer conforto, então porque tantos “confortáveis” estressados?! Que paradoxo! Acho que tem mais coisa aí escondida. A Sociologia explica que a decadência do discurso moral atrai a violência generalizada, mas ninguém está dando atenção a isso e, aliás, onde estão os sociólogos?! Ah, é mesmo, eles, dentre outros profissionais, são minoria agora, pois alguém disse que Sociologia não dá dinheiro e se você quer ser importante, tem que estudar pra ser “dotor”, mas não qualquer “dotorado”, tem que ser um que dê dinheiro, que se dane a tal da vocação, o que importa é o tostão mesmo que depois seja preciso gasta-lo com caixas e mais caixas de Prozac. Nossa sociedade democrática de voto obrigatório nos impõe um pesado jugo, mas isso é “fashion” e fashion também virou sinônimo para globalização.

Lembro que quando era pequena minha mãe tinha saudade do tempo de antigamente. Hoje estamos muito ocupados nos (sub) desenvolvendo através da literatura do “babado” onde é muito informativo averiguar se aquela cantora famosa já está em boa forma após dar a luz ao filho daquele outro famoso que desfez um casamento de vinte e cinco anos só por que a esposa já estava velha.

Finalizo minhas conjecturas suspirando, agora eu, com saudade do tempo de antigamente. Éramos felizes e não sabíamos.

sábado, 30 de junho de 2012

O Consolo do Espírito Santo

A palavra consolo é definida no dicionário como o ato ou efeito de trazer conforto; acalento. Os cristãos entendem mais o consolo do Espírito Santo como sendo aquela ajuda recebida nos momentos tristes.

Mas o que realmente vem a ser o consolo vindo da parte do Espírito Santo? Vejamos o que a Bíblia diz em:

a) Jo. 14-16;17: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós."

b) Jo. 14-26: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito."

Agora analisemos as palavras de Jesus: na alternativa a, Cristo revela quem é o Espírito Santo e o mais interessante é o uso da expressão "outro Consolador". Em Matheus 11, a partir do verso 28, Jesus faz um convite para que venhamos a Ele e, dentre as promessas que faz, está a de trazer alívio e conforto. Assim sendo, podemos concluir que ele também tem o papel de Consolador. Depois disso, Ele se refere ao Espírito como sendo o "Espírito da Verdade" e, outra vez, mais uma lição nos é passada: se Ele diz em Jo. 14-6 que é o Caminho, a Verdade e a Vida, então de quem é o Espírito senão dele mesmo? Outro fato interessante é a exclusividade desse Espírito. Jesus deixa claro que o mundo não pode recebe-lo porque não O  vê nem o conhece. Somente aqueles que são de Deus tornam-se habitação de seu Santo Espírito.

O item b, neste caso, nos é mais revelador, porque nos ensina em que consiste, precipuamente, a presença do Espírito Santo em nós. Cristo diz: "... vos ensinará todas as coisas." ou seja, primeiramente, nos educar, instruir, capacitar, etc. E mais adiante ele completa: "...e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito." Eureca! Este é o ponto chave! O Espírito Santo nos consola toda vez que nos faz lembrar das Palavras do Senhor, de suas promessas, de quem somos por intermédio de Cristo e isso ocorre com mais intensidade quando estamos passando por diversidades. Isso nos renova, nos fortalece, nos alivia, nos faz perceber que não estamos sós, que há um Deus maravilhoso e poderoso a labutar por nós. Sermos instruídos em justiça pelo Espírito do Senhor e depois por Ele mesmo sermos lembrados de Sua grandeza é o que nos faz seguir adiante. Aleluia!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Aquele Estranho

Por entre esses muitos caminhos da vida, conheci alguém. Seu nome eu nunca soube. Ele era mais velho do que eu. Sua pele era parda, seus cabelos lisos e escuros lhe caiam à altura do pescoço. Era alto e magro, mas atraente. Seus olhos: verde-esmeralda.

Nossa amizade começou com uma troca de gentilezas, dessas corriqueiras entre estranhos. Foi aí que nossos olhares se cruzaram e algo diferente nasceu em meio a uma série de encontros nada casuais. Ficamos um bom tempo nos admirando de longe. Meus olhares eram furtivos, os dele, diretos. Assim ficamos até que ele veio a mim, como convém aos cavalheiros.

Conversávamos de tudo um pouco, mas era a Literatura que dominava nossos diálogos. Ele era graduado e confessou-me dias mais tarde que dispendera dez anos de sua vida lecionando, mas que agora não mais possuía pupilos pela força de um contrato. Seu muito saber me constrangeu no princípio, contudo depois fui relaxando; a maneira pela qual ele expunha seus dotes era tão simples e envolvente que desconhecer se tornou uma dádiva. Era prazeroso ve-lo gesticular ao passo que acabava com minha ignorância e de igual modo ver os movimentos harmônicos de seus lábios bem feitos. Em diversas ocasiões desliguei-me do que ele dizia a imagina-los por sobre os meus; sua maciez e gentileza ao beijar-me. Depois a razão chamava de volta à realidade a mente vadia.

O cair da tarde era a hora de dizer adeus; hora de voltar para nossos mundos até o encontro seguinte. Brincava ele que nos separar por algumas horas era imperioso a fim de termos o que narrar depois. Eu sorria tímida. Cada despedida me custava uma parte da noite em vigília, a ruminar nossas conversas, a relembrar cada gesto, cada frase com o intuito de me provocar riso, cada expressão de afeto e admiração.

Meu coração me indagava se estava eu apaixonada por aquele estranho, mas que dizer ao coração? Que sensatez pode haver em quem tem o amor como senhorio? Não  podia racionalmente com ele contender. Lhe oferecia sempre o silêncio como resposta.

Nossos dias ao todo foram cinquenta e sete. No quinquagésimo oitavo, nos separamos, porque assim quis ele. Recebi das mãos de um garçom em nosso sagrado lugar um manuscrito que até hoje repousa no interior do compilado que guarda os versos de Cecília, os meus preferidos. O papel era comum, a caligrafia artística. Li a primeira sentença e tornei a dobrar o papel. Não! Não era verdade! Eu não podia aceitar! Tive ímpetos de atira-lo longe. Quis amassa-lo, com raiva, mas meu músculos tesos pelo sangue congelado em minhas veias me foram um empecilho. Ofegante, pensei que ia desfalecer. Uma nuvem escura já pairava em frente a meus olhos quando uma voz feminina perguntou-me se eu passava bem. Engolindo em seco e sorrindo forçadamente menti á gentil mulher.

Mais do que depressa fugi dali. Refugiei-me em um canto e levei o manuscrito ao nariz, porém nada aspirei além do cheiro da celulose. Que ódio, que dor! Levei o escrito ao peito e ali o mantive por sobre o meu coração até a torrente de lágrimas cessar e com os olhos embaçados o reabri. Sim, a verdade estava ali: o mesmo papel comum, a mesma caligrafia artística, a narrar o seu adeus:

Caríssima,


          Sinto profundamente em assim tão covardemente me despedir. Não suportaria ver em teu rosto qualquer expressão de dor depois de ter sido iluminado tantas vezes com a luz do teu sorriso.
             Não quero que te sintas culpada por coisa alguma, pois mal nenhum me causastes. A verdade é que sou um vilão, um pérfido, que não merece tua amizade e muito menos o teu amor. Sim! Sei que  me amas e eu também te amei desde o primeiro momento, quando teu rosto de anjo remeteu-me a sensações que nunca antes experimentei por mulher alguma. Nunca perguntei teu nome, entretanto estou certo de que é tão lindo quanto a tua voz, ora de menina, ora tão mulher. Insisti em encontra-la porque demorei de me dar conta de que tu não eras uma miragem, fruto da loucura de minhas muitas letras e foi nesse instante que se iniciou o meu delito, pois pareço vivo, mas estou morto. Uma silenciosa enfermidade está me tomando a vida e contra ela já desisti de lutar. Decidi viver o resto de meus dias de maneira inconsequente uma vez que a medicina já foi vencida e vi que me será mais digno cessar de existir, quem sabe, como um boêmio e, assim, quando finalmente cair morto, seja minha aparência menos asquerosa que a do moribundo que aguardou a senhora do destino de todos nós em cima de um leito.
          Melhor será para ti, minha querida, nos separarmos agora, para que teu sofrimento seja menor. É o mínimo que posso fazer. Melhor teria sido não ter eu te causado incômodo nenhum, contudo não posso fazer voltar o tempo. Espero que me perdoes. Tu tens uma vida inteira pela frente e muitos sonhos a sonhar. Não sei para onde vou, mas quero que saibas que não a esquecerei minha Iracema, minha Isolda, minha Julieta.
            Termino aqui permanecendo assim, inominável a fim de que seus lábios não sejam maculados pelo nome de alguém que não merece lembrança. Adeus.


Dobrei a carta de modo a ficar bem pequenininha e a escondi entre os seios. Voltei para casa e vivi muitos dias de luto pelo meu amor, meu Tristão, meu Romeu, com quem vivi uma eternidade de mil, trezentas  e sessenta e oito horas.

sábado, 16 de junho de 2012

A Era do Conhecimento e a Emburratização

Na década de oitenta, Peter Drucker previu que entraríamos na era do conhecimento e isso é verdade - estamos vivendo nela, mas percebi também que há uma força trabalhando contra o avanço do saber e aqui a denominaremos de "emburratização".

Há quem possa julgar o que Drucker chamou de era do conhecimento como uma coisa contemporânea, mas a emburratização, (termo a que peço licença ao querido leitor para usa-la sem me valer das aspas tal como fiz no título) não. Ela já vem de longas datas, do tempo em que alguém (diga-se sempre) se ocupou em espalhar que o saber e o conhecer é privilégio de poucos, que a ignorância e a felicidade andam de mãos dadas, que estudar é para quem não nasceu bonito e, portanto, não pode ser artista, essas coisas.

O sabido incomoda. Basta que alguém demonstre ter um pouquinho mais de "tutano" para começar a sofrer bullyng de variadas formas. Diante disso, o geniozinho, coitado, em busca de aceitação, decide emburrecer ou se manter na média.

Como foi dito no segundo parágrafo, não são de agora as astutas manobras a fim de manter o povo na ignorância. O dominador sabe que não pode com cabeças pensantes. Vejam por exemplo o que ocorria em nosso país durante a ditadura. Quem se atrevia a pensar diferente era tachado de subversivo e tornava-se alvo de perseguição. Os estudantes de Filosofia, Sociologia ou de qualquer outra "ia" que ensine a pensar, pior ainda! Chegaram até a criar os cursos de nível médio técnico de modo a ninguém precisar (leia-se impedir, evitar...) ir a faculdade.

Refletir a respeito destas coisas me faz indagar cada vez mais que paradoxo é esse: é a emburratização andando em paralelo à indústria do conhecimento e, diga-se de passagem, que força ela tem! Ao ligar a TV, vemos as mulheres frutas, condimentos e répteis, com seus corpos esculpidos disseminando (ou ressuscitando) a cultura da mulher objeto, novelas, os realities besteiras, besteiras e besteiras e outros programas que atentam, afrontam e ofendem nossa inteligência tendo altos índices de audiência para sorte deles e infortúnio nosso. Essas coisas além de alienar, atrai outra sorte de prejuízos.

Estudar, no entanto, continua sendo pré-requisito pra se arrumar um emprego e, consequentemente, ganhar dinheiro. O mercado de trabalho, hoje mais exigente, sempre requereu de nós a qualificação. Diante disso,  continuando o raciocínio ante ao paradoxo citado no parágrafo três: milhões correm em busca do conhecimento que lhes dará o diferencial a fim de conquistar a tão almejada colocação e, diga-se de passagem, não qualquer colocação, e sim à que o esforço seja mínimo e o retorno máximo. Imagino que alguém aí do outro lado acabou de gargalhar e exclamar: "É assim mesmo!". Que se danem os investimentos a longo prazo! Queremos plantar agora e colher ontem!

Veja o que escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer, na primeira metade do século XIX:


"Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância para a instrução e a verdade.
... E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e ganhar ares de importantes. A cada trinta anos desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. - Quanto aos estudos feitos simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta." (A arte de escrever, Schopenhauer, 2005, L&PM Editores, pag 19)

Adaptando a passagem acima ao nosso contexto, veja se não é isso que estamos vivendo? Ainda citando Schopenhauer (2005), o que se tem em mente hoje não é a instrução e sim a informação. Busca-se os títulos. A palavra profissional tem perdido seu sentido etimológico. O bom agora é estudar para ser "doutor". Eles estão errados? Em uma análise superficial, não. Para que um saber profundo, genuíno e de qualidade em um mundo que lhe oferece em troca a massificação e a alienação? Pobre de mim e meus "textos cabeça" e que alegria a minha ter quem me leia!

Disse Jesus: "Entrai pela porta estreita porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela". Quem tem ouvidos para ouvir ouça e bem-aventurados são os que leem as entrelinhas. Do contrário, que Deus tenha misericórdia de nós.


sábado, 5 de maio de 2012

Alice

O raiar de mais um novo dia tiraram Alice da cama. Não precisava se dar ao trabalho de se levantar tão cedo, porém Alice apreciava as primeiras horas da manhã. O período de cinco as sete tinha para ela um odor singular. Tudo parecia estar igualzinho às vinte e quatro horas anteriores, mas era um novo dia, uma página em branco aguardando a reescrita; tempo de continuar o que ficou inacabado ontem. Roupas já podiam ser vistas balançando ao varal, a vizinha barulhenta do 7-b já escutava sua música de péssima qualidade, passarinhos se agitavam nos fios de alta tensão e não muito longe dali pneus cantavam.

Vencida a preguiça matinal, a mulher de curto cabelos vermelhos alongou seus magros músculos e se dirigiu a cozinha. Seu desjejum foi um copo bem grande de suco de laranja acompanhado por um sanduíche idem à frente da TV. O programa era legendado, mas a ruiva não prestava muita atenção nas duplas fileiras de diálogos que rapidamente iam e vinham. Ateve-se a estudar a linguagem corporal das personagens ao tempo em que se divertia com suas caras e bocas. Interessante era conjecturar a respeito daquele contexto onde de maneira bem humorada alguém entendeu por bem expor as aventuras e desventuras impostas pela regra do conviver. Da mesma forma era intrigante entender como alguém cercado por tantos podia se condicionar a uma existência solitária. Grande parte das pessoas que conhecia encaixavam-se neste perfil com maestria: seus perfis nas mais baladas redes sociais continham um número expressivo de "amigos", contudo deixavam a desejar no quesito interação.

Crescer para aquela jovem de vinte e cinco anos significou muitas coisas além de atingir 1,72 de altura. Ninguém entendeu quando ela deixou a casa de seus pais, tampouco quando escolheu uma profissão pobre em status, mas assim era Alice. Quem bem a conhecia, sabia que sua ideia de amadurecimento baseou-se em não seguir o curso desse mundo; não se dobrar diante da ditadura da estética ou qualquer outra coisa que significasse cerceamento de liberdade. A tutela do Estado e a obediência, primeiramente as autoridades paternas, já lhe bastavam para aquilo que lhe significava bem comum não beirar ao caos. Sua organização e sistemas eram únicos para infortúnio dos invejosos que nunca se importaram em deixar o cômodo banco da mediocridade.

Alice imunizou-se, sem a mínima ideia de como ou quando, ante as patologias sociais e não se envergonhou em procurar Freud a fim de que este lhe explicasse e desmistificasse as três figuras do seu eu. O resultado foi uma mulher mais forte, mais segura de si e menos preocupada com o que tem dado e recebido. Aprendeu que frutos geralmente não são colhidos imediatamente e que é importante improvisar com aquilo que se tem em mãos.

Dificuldades em se moldar ao que o mundo entende como social ainda existiam, entretanto cada pôr do sol e cada amanhecer significavam novas chances, novas possibilidades, novas maneira de ver e ouvir, de sentir, aspirar. Rico era o terreno a ser explorado e assim Alice se via fazendo ciência. Acreditava em obter sucesso na coletividade em um pequeno universo, à princípio, preço pequeno diante de um bem maior e mais lucrativo, não exatamente significando cifrões. Como todo peregrino nesta terra, era preciso continuar seguindo viagem, parando aqui e ali para descansar até alcançar a Terra Prometida e, é claro, não desprezar a figura dos seres com os quais iria cruzar durante a jornada. Gente de toda parte, de variados povos, línguas e nações; cada um do seu jeito, pisando devagar em terra estranha; forasteiro, profeta sem honra em sua própria casa, mas batalhador.

Ninguém nasceu para viver só e Alice cria que além da bonança no lugar onde mana leite e mel, se uniria aos seus. Outros incompreendidos, rejeitados e órfãos seriam seus irmãos e juntos fariam a diferença. Esse número era bastante insignificante agora, contudo suas esperanças de que este aumentasse com o tempo era enorme. O pobre, o doente, o oprimido, o caridoso, o samaritano e toda espécie de enfermos encontrariam a cura, o aconchego, o alívio, a vida, o pão, e o manancial de águas doces sob os galhos da mesma árvore em que vinha fazendo morada, nascida do mesmo grão de mostarda que outrora fora julgado estéril.

Alice quase não cabia em si mesma. Seus atributos físicos não eram muitos e o choque que causava um paradoxo, pois tanto podia passar invisível como atrair todos os olhares para si. De uma pessoa desse gabarito não se sabia o que dizer e de semelhante maneira o que se pensar, mas caber em si mesma não era nela o ser presunçoso. Fora um bebê mui desejado, mas não ocupara por muito tempo a cadeira de preferida de seus pais. Como toda adolescente teve sua crise de identidade e era incapaz de analisar com qual grau de "maturidade" atingiu a idade adulta. Só sabia que foram tempos difíceis que graças ao bom Deus tinham ficado para trás e hoje, o que ela podia chamar de experiência, julgava que melhor servia se fosse para ajudar o seu próximo sem sensacionalismos. Não importava quantas pedras lhe atirariam. Alice nascera para ser Alice. Ponto final.


domingo, 22 de abril de 2012

O perdão é uma escolha


E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as nossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas (Mc. 11-25;26).


Há um número muito grande de pessoas, de crentes inclusive, que acha que o perdão é uma imensa borracha. Esta, quando necessário, irá agir na parte do nosso cérebro responsável pelo acúmulo de memórias, e "apagar" o mal que esta ou aquela pessoa nos fez. Ledo engano! Isso nunca irá acontecer. Na verdade, aquela lembrança depois de um tempo, deixará de incomodar, contudo devemos fazer uma escolha para que isso ocorra. Sim, devemos escolher que esta recordação cesse de nos atormentar. De outra forma, o perdão não será liberado e passaremos a carregar um ou vários fardos n'alma. Vejamos:

A passagem bíblica que antecede o começo deste relato, nos ensina que, para recebermos perdão, necessário é que também o façamos. A  Bíblia de estudos que utilizo informa que o termo perdoar e seus derivados aparece 62 vezes em diversas passagens espalhadas pela antiga e nova aliança e o exame de algumas delas nos faz notar que algo bom ocorre toda vez que ele se manifesta. Bons exemplos estão em Marcos capítulo 2 dos versos 1 ao 12º e depois um pouco mais adiante, em Lucas capítulo 07, nos versículos de 36 ao 49. No primeiro exemplo, visualizamos a história do paralítico de Cafarnaum. Cristo entende que havia naquele homem faltas a serem perdoadas e antes de lhe ordenar levantar, tomar o seu leito e ir para casa, lhe diz: "... Perdoados estão os teus pecados." Coisa parecida pode ser vislumbrada na passagem citada do livro de Lucas onde se registra o episódio em que uma pecadora unge os pés de Jesus. Note-se que a referida mulher não vinha sendo afligida por um mal físico, porém mazelas psicológicas, resultantes de suas más escolhas lhe tolhiam a paz. Salientemos ainda que ambos os personagens foram alcançados pelo mal por causa do pecado, mas enxerguemos o bem que receberam ao serem remidos. É esse bem que Deus quer que concedamos ao perdoar, e também, de certa forma, usufruir dele, mas como? Novamente, a própria Bíblia Sagrada nos traz a resposta: em Provérbios 4-23. Está escrito: " Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, por que dele procedem as saídas da vida" e, neste mesmo livro, no capítulo 15, verso 13, encontramos: "O coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate." Guardar o coração também significa filtrar o que vai ser alojado dentro dele, se não tal e qual a afirmação do capítulo 15, o espírito ficará abatido. É horrível quando somos traídos, machucados, afrontados e coisas afins, mas é terrível também para nossa saúde quando acumulamos essas raízes de amargura dentro de nós. Tais coisas podem nos levar tanto à morte física quanto à espiritual e se não nos "matar" pode nos condicionar a um estado vegetativo em que estaremos impedidos de viver uma vida em plenitude por causa de tanta sujeira.

Sou cristã há dez anos, mas só entendi que perdoar é uma escolha e não "a grande borracha" anos depois após sofrer uma decepção amorosa. A dor da perda e da traição me atormentou durante dias e neste este interstício de tempo clamei aos Céus por ajuda. Eu necessitava que Deus levasse embora aquela dor, contudo o Senhor, em sua infinita sabedoria, não permite que saiamos de mãos vazias de situação alguma, e através de um livro cujo objeto era as armas espirituais e seu correto uso, ensinou-me essa importante lição. Lembro-me como se fosse hoje: eu estava no ônibus, a caminho do trabalho e, como de costume, aproveitava o tempo do trajeto para ler ao me deparar com esta parte do impresso em que o autor relata uma experiência particular em que resolve perdoar o sócio que o havia passado para trás. Ele ainda passou um tempo torturado pela raiva e pelo ressentimento, principalmente porque o que sofrera deixara-o em péssima situação financeira, mas assim como Jó, ele foi resiliente e prosperou em sua decisão e não tardou para que a recompensa chegasse. Sem pensar duas vezes, fechei meus olhos e disse a Deus que naquele instante eu estava escolhendo desistir do ressentimento para com a pessoa que me traiu, estendendo minha decisão àqueles que o ajudaram na empreitada. Acreditem ou não, mas ao terminar a oração senti uma onda de calor percorrer o meu corpo e me trazer uma maravilhosa sensação de bem-estar. Foi algo tão  especial que fechei o livro e passei o resto da viagem em êxtase. É claro que, semelhantemente ao autor do livro, a mágoa e o ressentimento e tudo mais que nos aflige quando nosso orgulho é ferido apareceram em certas ocasiões para me assombrar, mas toda vez que isso acontecia, eu falava com Deus, por vezes entre lágrimas, que não ia voltar atrás em minha resolução e o Senhor me premiou com a cura. Hoje posso dizer seguramente que liberei perdão para estas pessoas e estas lembranças não me incomodam mais. O perdão não agiu como borracha e sim como antídoto.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Paraíso





Parado em um momento no tempo, tive tempo para sair de mim. Viajei a um lugar paradisíaco e lá encontrei seres mágicos. Uma criança de cabelos amarelos me teceu uma coroa de flores e depois atravessamos um rio cujas águas eram mui cristalinas.

Do outro lado da margem, outros seres fabulosos me fizeram festa e com eles me alegrei até fadigar. Depois disso, dormi entre as estrelas. Meu travesseiro era de nuvens. Não sonhei. Adormeci e despertei ao tempo de uma piscadela. Vi o sol mais amarelo a dar giros pelo firmamento a arrancar gargalhadas dos crisântemos e me pus a pensar que lugar seria aquele. Alguém me respondeu que eu me encontrava em meu interior e aquela era minha literatura. Minha coroa outrora de flores agora era do ouro mais fino e as mais preciosas pedras a adornavam, sim! Ali eu era o rei! Aquele momento no tempo me arrebatou os sentidos e me trouxe para junto de minhas criaturas, meus súditos leais que nunca padeceram tristeza e tampouco conhecem o pranto; um lugar onde o vento canta e as colinas lhe fazem coro, onde o alimento vem da novidade da terra e a chuva pinta a grama de um verde mais forte ressaltando o cheiro bom da natureza e onde a cerejeira dá suas flores na estação certa.

Não desejo eu voltar à realidade onde tenho que usar máscaras. Quero ser eu. Quero cruzar os céus descalço e de calças curtas como em meus folguedos de menino. Quero ser um artesão. Quero tirar da bruta madeira a sua forma. Quero dedilhar a harpa e atrair as musas com minha canção. Quero ver seus sedosos vestidos bailando ao sabor da brisa. Quero contemplar o ir e vir do passaredo nas matas e florestas.

Alguém me toca o ombro e me deparo com meu reflexo. É a razão a me despertar e a insistir que tenho que voltar. O ocaso se aproxima. Logo, pontos vermelhos aparecerão aos pares e se unirão em milhares a fim de cobrir a extensa trilha. Minhas mãos terão que tocar a gélida realidade e serei forçado a usar minha ferramenta onde não posso divagar e nem dar vida a meus encantos. Ali, sem misericórdia, haverá choro e ranger de dentes.

Volto a sentir meus pés no cinzento e maltratado assoalho. O momento no tempo se foi e sei que outros virão. Não estou no campo esquecido, sei que alguém me observa enquanto produzo meus versos entre as malhadas e Ele é aquele que não está ao alcance dos olhos, que não permitiu que o seu Santo visse a corrupção e de igual forma não deixará que eu sofra o dano da segunda morte.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tragicomédia

(Publicado na coletânea "A Miragem" lançada em 1997)





Severino encontrava-se rindo. Grande novidade! Severino nunca parava de sorrir. Estivesse chovendo ou fazendo sol. Não tinha esposa, filhos, família, escola de samba ou sequer time de coração. Seus colegas diziam que era por isso que ele vivia tão feliz: nenhuma dessas coisas o aborrecia. O mesmo não podia se afirmar do Zé Raimundo. Como sofria o pobre! Seu time nunca ganhava, sua esposa vivia grávida, seu salário nunca aumentava. Encontrava-se sempre carrancudo. Para ele, a tarefa mais difícil do dia era chegar em seu ambiente de trabalho e encontrar o Severino com aquele maldito sorriso no rosto. Que tortura! Na mente do Zé, Severino só vivia para atormenta-lo. Não só com aquela cara de feliz, como também com as perguntas de sempre: E a família, Zé? "Crescendo!" "E o time, Zé?" "Perdendo". Essa era a sua rotina: fazer carranca e odiar o Severino.

O tempo foi passando, até que um dia o chefe chamou o Zé para conversar. Sabe como é a situação, os clientes reclamando da carranca do Zé. Demitido por fazer carranca?! E os filhos para criar, como fica?! Por que o Zé Raimundo?! Por que não o Severino?! Severino não traz problemas pro trabalho. E que problema o Severino tem?! Não houve jeito. O Zé foi mesmo despedido.

Severino ficou  sabendo da demissão do Zé. Sentiu pena. Na hora da saída, barrou-o à porta e, evidentemente, sorrindo, tentou consolar o "amigo". Recebeu um murro na cara como resposta. Caiu e mesmo no chão, foi agredido novamente com um chute. Levantou-se cambaleando, pediu clemência, desculpou-se, levou mais porrada e mais chutes. Tombou novamente inerte. O Zé tocou-o: morto. Pela primeira vez, o Zé sorriu.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Paixão de Coletivo

E o vento brincava com seus cabelos. Tão negros... Tão compridos... Ela lia Descartes. Tão culta... Tão séria... Sua pele era rosada e seus traços delicados. Seria também de anjo o seu nome?

Decidi reputa-la por donzela; uma virgem da época em que as muitas saias lhe cobriam a nudez, mas que nada necessitava revelar a fim de levar o mais valente dos homens a por ela combater até o último sopro de vida. Seu cheiro era de jasmim, a calça escura e a blusa alva, o batom: rosa cereja. Entre uma parada e outra, o baile do vento em suas madeixas dava uma pausa e recomeçava enquanto Descartes ela lia.  Dedos finos... Toque sutil? Pianista? Talvez... Ela é linda! Estranha, minha conhecida, de segunda a sexta, por quarenta minutos, só minha. Musa dos versos que eu nunca lhe declamei; tema do cântico de amor que nunca entoei; mulher que em meus sonhos se aninha em meus braços. Descartes ela lê, meu rival; digno e detentor de toda sua atenção, que a faz surda às batidas de meu coração. Que a impede de perceber que meus lábios se mexem, porém nenhuma palavra sai.

Uns procuram a beleza na imensidão do oceano, outros contemplam o céu. Eu só preciso olhar pra ela. Seus olhos são escuros, incógnitos. Pobre coitado homem eu sou! Apaixonado, cativo de tão majestosa senhorinha. Sua voz ainda não ouvi, tampouco apreciei seu sorriso, senão em meus devaneios, em momentos febris onde sou privado de minha razão e no mesmo contexto abandonado pela lógica. Me crucificariam os racionais por sustentar tão insensato sentimento que me machuca ao tempo em que motiva a viver. "Sou teu humilde servo, mulher!" - grita meu coração, em vão. Ela não me ouve, muito menos me vê, seu devotado amante em pé a seu lado. Seus preferidos são os sábios: Neruda, Sócrates, Piaget, mas hoje Descartes ela lê, afortunado escolhido. Que inveja do pouco volumoso impresso acomodado entre seus dedos. Do Olimpo, o filho de Afrodite nos observa e de meu desassossego retira seu gozo. Travesso menino cuja flechada em cheio me atingiu.

Hora de saltar, minha agonia. Me arrasto cabisbaixo por entre os outros passageiros. À porta de saída, uma última olhada para trás. "Adeus, meu amor, tenha um bom dia!" - digo-lhe telepaticamente, sem esperar resposta.

domingo, 1 de abril de 2012

E o pensador...

E o pensador se pôs a pensar. 

Hiper produzir é o que faz de melhor a sua mente privilegiada, para não chamar de poderosa, uma vez que o ilustre analista não se sente a vontade com o adjetivo.

Encontrava-se ele àquela hora do dia em movimento. O coletivo quase vazio se dirigia a uma das partes mais nobres da cidade e o corpo robusto do protagonista se sacudia pelas ruas e avenidas exageradamente marcadas por lombadas. O sacolejar quase que não o incomodava pois, como sempre, sua atenção estava voltada para um impresso. Em seu colo pairava talvez a mais famosa obra de um filósofo francês que, assim como ele, teve sede de saber. Seu humor ao conceber tal relato podia ser comparado ao de Salomão quando da confecção do Livro de Eclesiastes. À medida que passava as páginas ia o peito do quarentão sendo tomado pela compaixão. Teve pena daquele sábio que dispendeu toda a sua existência a procura de uma fonte pura e imaculada de saber e não se deu conta que tal coisa não podia ser encontrada senão naquele que criou todas as coisas, o Deus Todo-Poderoso, a quem o autor conhecera de ouvir falar, mas que infelizmente lhe fora apresentado por uma teologia distorcida, corrompida e prostituída. Pena ter ele se escandalizado e não ter clamado aos céus por sabedoria, pois com certeza a teria recebido. O Livro dos livros nos assegura que o Bom pastor se achega à todo aquele que a ele se achegar e, em seguida, permite ser conhecido face a face.

Ao saltar do veículo tricolor, o pensador se deteve por alguns instantes estudando o cenário a seu redor. Ainda era bem tímido o número de pessoas presentes ali. O céu esboçava um azul intenso sem qualquer mancha de nuvem e o vento trazia as suas narinas um forte cheiro de maresia. 

Sua presença ali tinha um porquê: continuar sua introspectiva viagem; investir em si mesmo sem se preocupar com qualquer retorno financeiro. Era preciso. Era preciso fazer menos inferências e passar às indagações, mas não tinha que inquirir a si mesmo. Poucos eram os seus questionamentos agora. Seu eu cego já não lhe era tão desconhecido. O cientista (caso mereça ele tal título) vinha gozando de certa satisfação pelos degraus que já galgara, porém seu crescimento dependia agora de esclarecer alguns pontos  em seu círculo social composto por criaturas portadoras de suas próprias patologias. Pensador se compadeceu deles por diversas vezes e em várias ocasiões lhes ofereceu os seus préstimos de amigo. Os resultados foram variados e indignos de considerações, contudo o aprendiz de sábio não deixou de aprender algumas lições.

Sua pele hoje exibe o viço da liberdade; da liberdade de alma, da quebra das correntes da opinião alheia. Quão satisfatório vinha sendo não temer o incompreensivo e de tal maneira o que se revoltou com suas virtudes. Ele, que um dia foi menino, agora cresceu e que um dia foi cego, mas agora vê.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ode ao Homem

Ó exemplar do sexo masculino! Amamos o teu cheiro,
Mas isso não quer dizer que apreciamos você não usar desodorante.
Vocês são tão parecidos uns com os outros: imaturos, bagunceiros...
Tudo bem! Nós sabemos que a (des)culpa é da sua mãe.
Ela brigou com você toda sua infância e adolescência,
Pra você arrumar seu quarto, levantar a tampa da privada,
Não deixar a toalha molhada embolada em cima da cama,
e outras "cositas", mas coitada! Ela deve ter falado em
Outra língua, pois você casou e levou esses "descuidos"
(Pra não dizer maus hábitos) consigo, enchendo de presença
(Pra não dizer de bagunça) a vida da sua esposa.

Oh, que gracinha, meu amor! Quando você nos compara
Com a sua "ex", quando vocês presenteiam suas melhores amigas
Com aquele mimo que nós rejeitamos, porque sabemos
Que foi comprado pra nos tapear.
É só seu esse jeitinho de olhar pro nossos lábios,
Quando estamos falando, deixando bem claro que não
Estão prestando atenção em nossas palavras.
Amado meu! Por que será que ficamos jogando na sua cara
Que vocês não nos amam uma vez que vocês foram habituados
A desde pequenos amar objetos inanimados,
Pois quais foram os teus brinquedos, senão bolas, carrinhos, aviõeszinhos,
Cujas figuras reais não falam, não ouvem, não veem e não sentem?

É tão lindo quando vocês questionam o que colocamos no carrinho,
Ou o preço daquele vaso que você julga supérfluo comprar,
Mas que é mais barato do que aquele conjunto de acessórios
Que você adquiriu para o seu carro, que te completa mais do que a nós?
Por que então se irritar, ao sermos por vocês criticadas,
Por não conseguirmos ir ao shopping sem demorar,
E sem carregar um mundo de sacolas,
Já que compreendemos, que vocês não fazem o mesmo,
Por só conseguir lembrar de uma coisa de cada vez?

Ó criatura do Criador, companheiro querido!
Tu não és perfeito como aquele te fez, mas a gente se contenta
Quando, pelo menos, do cento, tu és noventa.
As feministas?  Que me perdoem!
Mas tu és necessário, pois é falo sério!
E a prova segue nesta ode que, por certo,
Não poderia satirizar melhor objeto.


sexta-feira, 16 de março de 2012

O duelo



Não havia no bairro da Cidade Nova quem não conhecesse a Avenida Vinte e Sete. O charmoso logradouro estilo condomínio fechado era formado de vinte e sete unidades, contando com a do senhorio, Seu Santinho, casado com D. Conchinha e pai de Maria Rita.
A Rita era moça prendada, temente a Deus e estudiosa. Dona Conchinha gabava as altas notas da menina nas ocasiões em que achava “caridoso” de sua parte, debruçar-se sobre o parapeito da janela da sala e tagarelar por algumas horas com os inquilinos. Sonhava a distinta senhora casar a filha com um homem rico, mas, para seu infortúnio, a jovem apaixonou-se por um professor.
Cássio Hélio, vinte e nove anos, professor da rede estadual de ensino, formado em Letras, ocupante da casa 13 e agora também dono do coração de Maria Rita.
O mestre bem intencionado apresentou-se aos pais da donzela como um saído dos romances de Alencar e para afastar de si a sombria ameaça de uma futura sogra desgostosa com o genro, rico em conhecimento, mas de bolso vazio, valeu-se da prosa de Machado.
Vencida a barreira da genitora caçadora de dotes, desfilava o casal pela singular avenida a destilar o mútuo sentimento aos olhos zombeteiros, curiosos, e, até mesmo, invejosos da vizinhança, entretanto mal sabiam os pombinhos que certo acontecimento do passado viria atrapalhar-lhes a felicidade: antes de Cássio, Rita fora cortejada por João Trancoso, 1,95 de altura, baiano legitimo, mestrado nas artes da marcenaria, ofício que herdara do pai e este de seu avô.
O morador da casa dezessete apaixonara-se por Rita e, à época, na esperança de ser correspondido, mimou-a com presentes e cercou-a de cavalheirismos, porém a oposição por parte de D. Conchinha foi mais forte. João deu-se por vencido, mas continuou a amá-la em secreto. Indignado com a descoberta do romance entre o objeto de sua afeição e o simplório educador irou-se e foi ter com seu algoz.
Trancoso foi recebido com surpresa por Cássio. Ritinha, em sua honestidade, já havia lhe confessado que passara um tempo atraída pelos dotes físicos do rapaz e também por seu bronzeado made in Ilha de Itaparica. Naquele instante, porém, o professor comportou-se como todo bom anfitrião e o convidou a entrar e sentar-se.
O marceneiro, após rejeitar todas as educadas propostas feitas por Cássio, revelou o motivo de sua visita: tinha ido exigir que o vizinho rompesse com a namorada, pois em seu entendimento era com ele que esta se encontrava compromissada, uma vez que vinha ele esperando pacientemente pelo seu amadurecimento.
O letrado nada lhe respondeu a princípio. Estudou-lhe as feições por alguns instantes, ponderou quantos dentes perderia no caso de o vizinho reagir com violência a sua resposta e, juntando toda a coragem que o zelo por sua imagem de macho lhe oferecera naquele momento, convidou educadamente João a retirar-se.  Trancoso não viu outra alternativa senão lhe propor um duelo. Se perdesse, jurou que mudaria de endereço e nunca mais importunaria o casal. Cássio concordou e o profissional da madeira retirou-se radiante.
Não tardou para que a notícia do confronto se espalhasse pelas adjacências, mas ninguém entendeu o porquê de Cássio ter aceitado o desafio. As hipóteses surgiram aos montes, cada uma mais esdrúxula que a outra.  Rita implorou para que o noivo voltasse atrás na decisão tomada, porém Cássio estava irredutível. Tinha consciência de que era fisicamente inferior a João, mas algo maior estava em jogo. Sua noiva não compreendia sua veia romântica alimentada por Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e por tantos outros famosos casais da literatura mundial.
No dia do confronto os curiosos começaram a concentra-se horas antes do horário previamente combinado entre os guerreiros. Era domingo. Partidários de ambos os lados discutiam calorosamente seus pontos de vista e a molecada matava o tempo disputando um babinha com uma bola improvisada.
João e Cássio chegaram quase que ao mesmo tempo fazendo calar o vendedor de picolé e o rapaz da água mineral que gritavam o mais alto que podiam o preço de suas mercadorias. Dona Conchinha e Seu Santinho também se fizeram presentes em solidariedade à filha que já não tinha mais lágrimas para derramar. João não trouxe ninguém, mas sua torcida era indiscutivelmente maior.
Faltando um minuto para as três, o Seu Osmar, eleito como juiz do combate, participou a todos os presentes as regras da luta. Terminada a tarefa, João despiu a camisa do seu time de coração, exibindo seu dorso avantajado. Cássio trajava jeans e camisa pólo. Seu preparo se resumiu a retirar os óculos.
Em seguida, o árbitro conduziu os oponentes ao centro da arena e cuidou para que os dois apertassem as mãos. Depois, apitou e declarou por iniciada a luta. João elevou o punho e desferiu o primeiro soco. Cássio desvia-se do golpe e passa a saltar e a girar em torno de seu oponente. Trancoso tonteia, sente o estômago embrulhar, lembra-se de quando era moleque. Fugia das brincadeiras de roda; no parquinho mantinha-se longe do carrossel e da roda gigante. Um gosto estranho salta-lhe á boca, seu esôfago queima, vômito?! Não! Sua mente volta para a briga e ele fecha os olhos e espera que o cenário diante de si se estabilize. A multidão protesta. Trancoso abre os olhos e acerta a figura embaçada a sua frente. Cássio cambaleia, o povo vibra e João se alegra escarnecendo do adversário.
Soco nº. 3: o nariz de Cássio sangra, a multidão vibra novamente excitada pelo líquido vermelho que mancha a camisa do educador e faz Rita perder os sentidos. Trancoso assiste a donzela ser amparada pelos pais, se lembra que seu inimigo ainda está de pé e avança. Cássio começa a saltar novamente e João tenta acertá-lo mais uma vez, sem sucesso.
Golpe nº. 4: pra fora! João se enfurece, a adrenalina aumenta. Cinco, seis, hum! João é golpeado, o ódio o cega e... Pimba! Uma pernada derruba Cássio e João pensa em chutá-lo, mas Seu Osmar não deixa, é contra as regras, entretanto xingar era permitido e João “desce” o palavreado! Cássio vira de um lado, vira de outro, as pernas não obedecem, levantar está difícil, a multidão incentiva: tira o sangue dele! Não deixa ele levar sua mulher! Sim, Rita! Lábios doces, pele suave e mãos delicadas, dona do ventre que carregará seus filhos, nobre reino conquistado pela palavra. Sim, a palavra! A palavra tem poder! Ó João, pobre João! Garanhão das meninas, fugitivo da escola, inimigo dos livros, quem são os teus músculos frente ao poder dos grandes mestres da literatura brasileira?! Escrever-te-ei como a Caminha ao rei de Portugal.
Lima Barreto, Érico Veríssimo, Jorge Amado. As pernas de Cássio se recuperam e ele se ergue. A multidão delira e o educador passa a discursar. João ri, mas o professor continua; gesticula e declama. O silêncio vai se apoderando de todos, em efeito dominó.
João estarrece e Cássio se empolga: Padre Antonio Vieira: “se o sal não salga...” Trancoso protesta; o erudito não se intimida e continua: “Olhai os lírios do campo”. Para! - pede o marceneiro.
Mãos nos ouvidos, peito apertado. Aloísio Azevedo, o mulato, blasfêmia! É a ignorância de João. Aquilo não é ser homem no sentido de ser “macho”. As palavras lhe penetram, lhe perturbam, lhe enfraquecem, não! Para! É covardia! A multidão chora emocionada e de repente alguém bate palmas, outro faz o mesmo. Outro, outro e mais outro. João limpa o suor e se acabrunha, pensa em correr, mas macho não corre! As palmas continuam e João amolece. Seu Osmar apita e ergue o braço do campeão. Rita, já desperta, beija apaixonadamente seu herói. Trancoso dá dois passos e congela. As palavras de protesto morrem em sua garganta. Não queria que acabasse assim mas acabou. Acabou, acabou, acabou! - alguém parafraseia aquele famoso locutor. Derrota: Cássio sobre os ombros do Tio do mingau. Desfile do campeão, som do timbal. Ombros caídos. Recolhe-se o derrotado.