“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Alma de Artista

É um troço assim, meio estranho;
Que vê beleza no nada e que cheira a saudade;
É doideira constante, que contraria, Psicologia,
E na tristeza produz. É aquela que afirma ouvir
A orquestra das rosas e com elas faz coro.

É um troço assim, meio surreal, psicodélico.
É a delinquente da gente, maluquice, sandice;
É melhor que a revolta, não disse?
É de quem a possui e em ninguém se pode plantar
É de nascença de berço, de começo,
Sem fim, mas de recomeço.

É um troço assim, meio falido, rico, de um ouro
Que não reluz, mas é fonte, nascente, poente e crescente,
De quem sente e em verbo traduz.

É da velha e da senhora, da fada e da criatura;
A verdade da caverna ou da ira futura, censura
Remédio não cura, bisturi não extrai, não sai;
Fica e complica, implica, isola, faz menção.

É um troço assim, abençoado, "amaldiçoado", isolado
De trocadilhos, de centavos e outros grados.
É um troço assim, meio eu, meio você, meio nós...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A velha casinha

Era uma vez uma velha casinha à beira do caminho. Ninguém sabia precisar há quanto tempo fora construída. Quem por ali passava só podia afirmar que esta existia desde sempre.

Da sua varanda podia-se ver tanto o nascer quanto o pôr-do-sol. Estava desabitada, mas mesmo assim uma grama fresquinha a cercava e flores cresciam aos pés da mureta de pedras fogueadas entrecortada por um também baixinho portão de madeira da cor do tempo. Seu telhado era de um vermelho que não se via mais. Cada pedaço dele fora moldado por alguém que não dominava a língua mãe; familiares daquela gente boa que tem vício na fala, segundo Oswald de Andrade. Estes dizem "mio" para milho, e "pió" para pior, mas são mais brasileiros que os da cidade grande, que os que nasceram na "capitá".

Por aquele caminho passava gente de toda gente e não havia este a quem a velha casinha não surpreende-se. Ninguém entendia porque o passar do tempo lhe fazia tão bem sem a interferência de um mantenedor e muito menos quem era seu jardineiro. Mas por que não prestigiar seus atributos? O vento sopra e não se sabe de onde ele vem , tampouco para onde vai, entretanto ninguém quer viver sem ele.

Era aquela casinha a inspiração dos poetas e dos menestréis. Incontáveis versos cantaram e encantaram o místico lugar. Artistas de rua a levaram para seus palcos e de seu estilo nasceu outras arquiteturas. A frondosa árvore a sua esquerda é morada para o passaredo que desperta o viajante que se acolhe da chuva debaixo do seu alpendre. Do seu interior ninguém desfruta; santuário que nem o pior dos vândalos se atreve a violar. Qualquer um que sonha se torna seu devedor: o boêmio, o poeta, o músico, o artesão, o lírico, o erudito, o multifacetário, o eclético, o filho e também o pródigo; os ébrios e os sóbrios são seus discípulos; uma voz que chama, mas em vão, pois muda é e calada muito fala já que corações ardem e bocas que enchem por causa dela.

Dizem que por muitos anos ali morou um homem de desconhecida origem e genealogia. Ele sorria para todos os que passavam, especialmente para as crianças. Seu rosto era sereno e seus cabelos brancos. Um suspensório lhe segurava as largas calças. Despertava a bondade e a compaixão dos que o viam, alguns como solitário, outros como a diferença em meio a tanta iniquidade.

Sua alma nunca se abatia, ignorava-se contudo em que ou em quem se baseava sua felicidade. "Cada um tem porquê viver", o anônimo um dia afirmou, mas tanto se pode buscar felicidade ao som da harpa como em meio a escuridão voluntária, visto que a janela marejada por múltiplas gotículas de chuva ou a uniformidade e harmonia do canto gregoriano, vazio do som das cordas e das teclas, é belo e ambos podem trazer paz e música ao fiel.

Marcou assim presença esse desconhecido e célebre senhor, que um dia desapareceu e quem o amava ainda nega que ele morreu, se foi; sua consciência assim se desfez e desse modo foi ele juntar-se aos que nada sabem, mas que a saudade faz crer que com bons olhos nos vigia do Céu, morada do Altíssimo, a quem se destina o retorno do espírito que Ele mesmo nos deu, para descrença do agnóstico e recusa do ateu.

A casinha, por sua vez, ali perdura.  Linda! Charmosa, sem artíficios. Seu  era uma vez, para nós, aqui termina, se feliz, não sabemos, mas ela existe! Levanta  e vê: branca, rosinha, caiada da cor que se imagina; cheia de estampas ou de muitas janelinhas.

sábado, 4 de agosto de 2012

Olhar maduro


Cabelos brancos, pele enrugada, sexagenária. Com dificuldade, calço meu par de tênis com detalhes rosa, presente de minha neta pré-adolescente. Em meu ipod, presente de outro neto, músicas do Roberto.

O sol está bonito, sete da manhã. Atravesso a rua de asfalto recapeado e chego ao calçadão. Ser banhada pelo astro rei me é necessário para produzir o tal do calciferol, que um dia alguém me explicou se tratar da vitamina D.

Meus passos são curtos, peso da idade; passos que já foram ágeis na corrida para não perder o metrô, para acudir o bebê trôpego em seus primeiros passos, para servir o marido, hoje saudoso, ontem faminto após uma longa jornada de trabalho; a nostalgia lamenta a perda do viço, porém o otimismo vislumbra o lado agradável: a marcha lenta me ajuda a melhor ouvir a melodia das vagas quebrando na praia e o granjear da ave cujo nome desconheço. Devagar meu prazer é prolongado pelo bater em meu rosto da brisa suave com cheiro de maresia; melhor admiro o moço bonito parecido com aquele da novela, que passa exibindo saúde. Dou bom dia ao jornaleiro que passa com a pilha das novas do dia.

À minha esquerda, porém, a visão não é tão bonita: vejo passar o endinheirado em seu Land Rover distraído falando ao celular e não vê o que sinaliza avisando que vai ultrapassar. Os pneus cantam a fim de evitar a batida e o ofendido xinga por entre a greta aberta do seu vidro escuro, alguém que não tem nada haver também pragueja e tal peçonha contamina a outros que lhe imitam o gesto com buzinadas e sinais obscenos. “Quanta grosseria!” - penso eu. Alguém pode pôr a culpa no estresse ou nas patologias psicossomáticas da modernidade, porém vem a dúvida: se o fim da modernidade é trazer conforto, então porque tantos “confortáveis” estressados?! Que paradoxo! Acho que tem mais coisa aí escondida. A Sociologia explica que a decadência do discurso moral atrai a violência generalizada, mas ninguém está dando atenção a isso e, aliás, onde estão os sociólogos?! Ah, é mesmo, eles, dentre outros profissionais, são minoria agora, pois alguém disse que Sociologia não dá dinheiro e se você quer ser importante, tem que estudar pra ser “dotor”, mas não qualquer “dotorado”, tem que ser um que dê dinheiro, que se dane a tal da vocação, o que importa é o tostão mesmo que depois seja preciso gasta-lo com caixas e mais caixas de Prozac. Nossa sociedade democrática de voto obrigatório nos impõe um pesado jugo, mas isso é “fashion” e fashion também virou sinônimo para globalização.

Lembro que quando era pequena minha mãe tinha saudade do tempo de antigamente. Hoje estamos muito ocupados nos (sub) desenvolvendo através da literatura do “babado” onde é muito informativo averiguar se aquela cantora famosa já está em boa forma após dar a luz ao filho daquele outro famoso que desfez um casamento de vinte e cinco anos só por que a esposa já estava velha.

Finalizo minhas conjecturas suspirando, agora eu, com saudade do tempo de antigamente. Éramos felizes e não sabíamos.