"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

sábado, 22 de junho de 2013

Fragmentos

Ferida, a alma se enclausura e para a realidade dá as costas.
Em seu exílio, a verdade se torna em sombras.
Gritos explodem em seu interior;
Seus pensamentos – o hades;
Seu coração, desceu ao sheol.

O curador é o cronos: homeopático, paciente,
Ardente como o líquido carmesim por sobre as chagas;
Enfermidade abstrata, cruel, implacável.
Onde está a esperança?! Onde estão os sonhos?!
São dois que a nenhum se pode reter:
Um partiu em séquito adeus; o outro, foi-se com a desilusão. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Prisões

Aterroriza-me a solidão em espantos noturnos;
Esbarro nas amarras que ataviam meus calcanhares – prisões.
Os punhos presos em lembranças tuas,
Doçura que amarga, delicioso fel, cujo mel encobre a verdade.

Em superfície gélida, úmida, vi passar o amor,
E cortou-me a carne o azorrague de seu olhar;
Entupiu-me as veias a tua meiguice; tua presença – espectros.

Em palavras suei, estremeci, desfaleci;
O que sou?! Ó pobre, pobre mulher! Prisioneira,
Cativante e cativa, ladina feiticeira,
De sonhos confusos, intrusos, submersos.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Páginas de diário

 Meu Diário, como é que vai você? Tudo bem? Desculpa pela ausência, mas tava uma loucura a escola, aqui em casa, tudo! Até pensei em me desabafar com você ontem a noite, mas não deu, eu tava tendo um dia daqueles, sabe? Eu só ia te manchar todo com as minhas lágrimas. Sei que não seria nenhuma surpresa pra você se isso acontecesse, afinal já fiz isso tantas outras vezes... Mas ontem tava demais sabe? Parecia que tinha uma “torneirinha” aberta aqui dentro de mim que foi difícil conseguir fechar, ufa! Mas hoje tô melhor, eu acho...

Da minha galera, tá todo mundo bem, a Babi tá cada dia mais fashion e agora resolveu ficar loira! Eu achava muito mais legal o seu cabelo cor de fogo e aquele namorado dela, o roqueiro (que você sabe, não cito o nome porque ainda não consigo gostar dele), também achava, aliás ontem foi a primeira vez que eu e ele concordamos em alguma coisa em relação à Babi. Ela continua tentando fazer a gente ficar amigo, mas... Vou levando porque você sabe, ela é uma irmãzona pra mim e se ela gosta dele, bem... Deixa lá. Pelo menos ele trata ela bem melhor do aquele Zé ruela de antes.

Minha mãe, tá aqui, cada dia mais estressada e, como sempre, descontando no meu padrasto. Outro dia, eles tiveram uma briga tão feia que achei que a coisa fosse até dar em divórcio, ai credo! Deus me livre de ver a minha mãe divorciada de novo! A Babi costuma falar que ex-namorado é um saco, mas ex-marido consegue ser mais, até mesmo pra mim, que nem casei ainda, mas o ex-marido da minha mãe é o meu pai... Ninguém merece... Mas vamos deixar meu pai para lá. Não foi por causa dele que eu vim te procurar. Tô aqui por causa dele... Daquele que prefiro morrer a dizer o nome novamente. A Babi vira e mexe me diz pra eu ter paciência, que eu vou esquece-lo assim como eu esqueci os outros, essas coisas. O problema é que eu ainda me lembro dos momentos que tivemos juntos e das coisas que ele me fez sentir e depois essas lembranças dão lugar à dura recordação do dia em que ele me disse que nós dois não dávamos mais. Eu invejo a forma com a qual ele consegue fingir que não aconteceu nada. Tô pensando em contar pra Tia Júlia sobre a gente e tenho certeza que ela vai ter alguma coisa super alto astral pra me dizer. Que minha mãe não nos ouça, melhor, não nos leia, mas eu queria que a Tia Júlia fosse a minha mãe. Ela é tão dez! Ela nunca se casou nem teve filhos, mas desde que eu me entendo por gente, nunca a vi reclamar de solidão. Mamãe fala mal dela às vezes, dizendo que ela troca de homem como quem troca de roupa e que apesar de estar com os dentes de fora o tempo todo, não é tão feliz quanto parece. Eu não acho, porém tenho que ouvir calada porque da última vez que me ousei a discordar ela me deu uma bofetada e quase que o Mauro leva uma também por me defender. A Tia Júlia é mais velha e tem menos dinheiro que a mamãe, mas vive melhor a vida. E me entende melhor também. Quando digo a Tia Júlia que estou namorando ela fica feliz e orgulhosa de mim porque estou tendo experiências. Já a mamãe acha que falar nome de meninos engravida. Aff! Fico imaginando como seria se ela soubesse que me meti com um homem mais velho. Oh, Deus! Provavelmente ela ia querer que ele fosse preso por pedofilia ou então querer que o Mauro desse uma surra nele, rsss!! Ai, só assim pra eu rir, pois tem dias que nem o de ontem que parece que eu fiquei com a pior parte. Levanto de manhã já com a sensação de que meu dia vai ser um saco porque ele não está mais comigo. Às vezes fico pensando o que foi que eu fiz de errado ou se o erro sou eu ter dezoito anos e ele, não tenho certeza, pois acho que ele mentia a idade. Ele me chamava de meu anjinho e ria de meu jeito de ser, mas eu não ligava. Sei que ele me achava meio criança, mas a gente se completava, eu acho. Eu também achava umas coisas que ele fazia meio assim, sabe, coisas de “tio”, porém era até charmoso. Opa! Tenho que ir! Minha mãe tá batendo, quer saber o que tô fazendo. Ela nem sonha que você existe, ainda bem, rss!! Eu morreria se ela soubesse o que escrevo aqui. A gente se fala mais tarde. Bjo!


terça-feira, 4 de junho de 2013

A Vizinha da Rua Detrás

Todo mundo ficou olhando a vizinha da Rua Detrás a se locomover ladeira abaixo com aquele enorme saco de lixo nas costas. Ninguém estava entendendo nada, muito menos meus amigos e eu, que interrompemos nossa pelada no instante em que ela cruzou o nosso campinho. Os comentários foram de todos os tipos, inclusive a surpresa de ver uma mulher carregando tamanho peso, porém eu confesso que a princípio meu primeiro pensamento foi imaginar se no meio daquilo tudo tivesse algo que a gente pudesse trocar por algodão doce, o que, aliás, não pude deixar de compartilhar com a turma e, após uma rápida deliberação, resolvemos segui-la discretamente e aguardar ela lançar o volume lá no “cestão”, apelido dado ao recipiente que armazenava todo o descarte das caixas menores antes de o carro de lixo fazer a coleta.

No caminho, alguns rapazes foram se oferecendo para ajudar, porém ela recusou auxílio. Não dava para escutar direito qual era sua desculpa diante de cada recusa, entretanto nos pareceu que alegava ser o conteúdo do saco algo parecido com lixo tóxico. Ao ouvirmos isso, meus amigos e eu até pensamos em desistir, mas quando imaginávamos o algodão doce derretendo em nossas bocas ao passo que pintava as nossas línguas de rosa, nos fazia recuperar a coragem e seguir em frente. Mais adiante, contudo nos vimos diante de um novo impasse, pois para nossa surpresa, a vizinha, não entrou na rua que fazia esquina com a banca do Seu Geninho. Quase a perdemos de vista devido ao tempo que levamos parados tentando adivinhar qual seria então o seu destino.

Algum tempo e muitos passos depois, finalmente chegamos ao local do descarte. Camuflamos-nos por detrás das ruínas do local onde um dia funcionara uma locadora de veículos, demolida com o fito de abrir espaço para a nova avenida. A vizinha então acocorou-se e passou a esvaziar o saco, porém não do modo como geralmente se trata coisas de que não se deseja mais. Ela ia tirando cada idem bem devagarzinho de dentro da embalagem e depois os arrumou como se pusesse a mesa para um banquete. Eu e meus amigos nos entreolhamos confusos e daí sugeri que fôssemos embora, uma vez que eu já deixara de vislumbrar qualquer chance de lucro naquela empreitada, todavia o Ubaldo, de nós três o mais velho, ordenou que nos calássemos e eu, que nunca fui muito de acatar ordens, senão de meus pais, quis pestanejar, entretanto o grito emitido por Naldinho, nosso caçula nos forçou a centrarmos novamente a devida atenção ao que se sucedia e foi aí que, para espanto geral, percebemos que a vizinha se preparava para tocar fogo em tudo. Sem saber o que dizer, levei ambas as mãos à cabeça em sinal de desespero e o Ubaldo fez o mesmo, exclamando : “Oh meu Deus!” Naldinho, que além de pequeno era deveras afoito partiu como um raio para junto da mulher e começou a suplicar-lhe para não fazer aquilo. Juntamos-nos a ele, contudo não aderimos a súplica. Passado esse instante, ela fez com que nos déssemos as mãos e nos explicou que tudo aquilo que víamos, apenas com nossos olhos naturais, eram fardos os quais ela decidira não mais carregar: dores, desilusões, promessas quebradas, falsas promessas, amores perdidos, paixões não correspondidas, traumas.

Ao final da narrativa, Naldinho, tomado de intensa compaixão, não se opôs mais ao seu intento e a mulher, estranhamente contente com aquilo, lançou mão mais uma vez do pavio que improvisara com uma folha de papel torcido e foi acendendo as labaredas. Ficamos ali durante não sei quanto tempo assistindo o fogo a tudo consumir e depois a acompanhamos até a porta de casa.

Na manhã seguinte, mal tinha o sol despontado no céu, quando acordei com minha mãe me sacudindo e me avisando que os meninos estavam a minha espera. Disparei em direção à sala ignorando completamente o seu aviso para que eu assim não o fizesse descalço e Naldinho, ao me ver, me abraçou em prantos escondendo seu rosto rechonchudo em minha barriga. Senti um grande nó se formar em minha garganta e fitei Ubaldo. Ele balançou discretamente a cabeça em sinal positivo confirmando o que eu em silêncio lhe indaguei.

Chegamos à Rua Detrás respectivamente acompanhados de nossos pais e nosso semblante decaiu ainda mais ao depararmos com a caixa fúnebre no centro do cômodo abarrotado de gente. De uma forma mórbida, havíamos virado celebridade, pois afinal tínhamos sido os últimos a vê-la com vida. Nunca me esqueço de quão sereno estava seu rosto envolto naquelas flores.

Amarguei juntamente com meus amigos ainda por muitos dias a esdrúxula dor que nos sobreveio por conta de sua partida. Quando a saudade era demais íamos ás escondidas (por causa da mãe do Naldinho que, por ser um tanto supersticiosa, proibira-o de faze-lo) até o local onde ocorrera nossa aventura e ficávamos lá, olhando para o nada por algumas horas ou então juntávamos uns gravetos e fazíamos uma fogueirinha a fim de passar o tempo vendo as chamas crepitando. Era bonito de se olhar as labaredas mudando de cor e balançando ao sabor do vento.


Hoje, toda vez que me recordo dessa história, assim procedo com a consciência de que aquele episódio fora nosso primeiro contato com o mundo adulto. Passei por dores, desilusões, quebrei promessas, bem como simulei algumas; pranteei por amores perdidos, paixões não correspondidas e traumas, mas ao cabo de alguns anos, achei por bem fazer uma fogueira como aquela, porém a fiz em meu coração.