“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

sábado, 30 de junho de 2012

O Consolo do Espírito Santo

A palavra consolo é definida no dicionário como o ato ou efeito de trazer conforto; acalento. Os cristãos entendem mais o consolo do Espírito Santo como sendo aquela ajuda recebida nos momentos tristes.

Mas o que realmente vem a ser o consolo vindo da parte do Espírito Santo? Vejamos o que a Bíblia diz em:

a) Jo. 14-16;17: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós."

b) Jo. 14-26: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito."

Agora analisemos as palavras de Jesus: na alternativa a, Cristo revela quem é o Espírito Santo e o mais interessante é o uso da expressão "outro Consolador". Em Matheus 11, a partir do verso 28, Jesus faz um convite para que venhamos a Ele e, dentre as promessas que faz, está a de trazer alívio e conforto. Assim sendo, podemos concluir que ele também tem o papel de Consolador. Depois disso, Ele se refere ao Espírito como sendo o "Espírito da Verdade" e, outra vez, mais uma lição nos é passada: se Ele diz em Jo. 14-6 que é o Caminho, a Verdade e a Vida, então de quem é o Espírito senão dele mesmo? Outro fato interessante é a exclusividade desse Espírito. Jesus deixa claro que o mundo não pode recebe-lo porque não O  vê nem o conhece. Somente aqueles que são de Deus tornam-se habitação de seu Santo Espírito.

O item b, neste caso, nos é mais revelador, porque nos ensina em que consiste, precipuamente, a presença do Espírito Santo em nós. Cristo diz: "... vos ensinará todas as coisas." ou seja, primeiramente, nos educar, instruir, capacitar, etc. E mais adiante ele completa: "...e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito." Eureca! Este é o ponto chave! O Espírito Santo nos consola toda vez que nos faz lembrar das Palavras do Senhor, de suas promessas, de quem somos por intermédio de Cristo e isso ocorre com mais intensidade quando estamos passando por diversidades. Isso nos renova, nos fortalece, nos alivia, nos faz perceber que não estamos sós, que há um Deus maravilhoso e poderoso a labutar por nós. Sermos instruídos em justiça pelo Espírito do Senhor e depois por Ele mesmo sermos lembrados de Sua grandeza é o que nos faz seguir adiante. Aleluia!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Aquele Estranho

Por entre esses muitos caminhos da vida, conheci alguém. Seu nome eu nunca soube. Ele era mais velho do que eu. Sua pele era parda, seus cabelos lisos e escuros lhe caiam à altura do pescoço. Era alto e magro, mas atraente. Seus olhos: verde-esmeralda.

Nossa amizade começou com uma troca de gentilezas, dessas corriqueiras entre estranhos. Foi aí que nossos olhares se cruzaram e algo diferente nasceu em meio a uma série de encontros nada casuais. Ficamos um bom tempo nos admirando de longe. Meus olhares eram furtivos, os dele, diretos. Assim ficamos até que ele veio a mim, como convém aos cavalheiros.

Conversávamos de tudo um pouco, mas era a Literatura que dominava nossos diálogos. Ele era graduado e confessou-me dias mais tarde que dispendera dez anos de sua vida lecionando, mas que agora não mais possuía pupilos pela força de um contrato. Seu muito saber me constrangeu no princípio, contudo depois fui relaxando; a maneira pela qual ele expunha seus dotes era tão simples e envolvente que desconhecer se tornou uma dádiva. Era prazeroso ve-lo gesticular ao passo que acabava com minha ignorância e de igual modo ver os movimentos harmônicos de seus lábios bem feitos. Em diversas ocasiões desliguei-me do que ele dizia a imagina-los por sobre os meus; sua maciez e gentileza ao beijar-me. Depois a razão chamava de volta à realidade a mente vadia.

O cair da tarde era a hora de dizer adeus; hora de voltar para nossos mundos até o encontro seguinte. Brincava ele que nos separar por algumas horas era imperioso a fim de termos o que narrar depois. Eu sorria tímida. Cada despedida me custava uma parte da noite em vigília, a ruminar nossas conversas, a relembrar cada gesto, cada frase com o intuito de me provocar riso, cada expressão de afeto e admiração.

Meu coração me indagava se estava eu apaixonada por aquele estranho, mas que dizer ao coração? Que sensatez pode haver em quem tem o amor como senhorio? Não  podia racionalmente com ele contender. Lhe oferecia sempre o silêncio como resposta.

Nossos dias ao todo foram cinquenta e sete. No quinquagésimo oitavo, nos separamos, porque assim quis ele. Recebi das mãos de um garçom em nosso sagrado lugar um manuscrito que até hoje repousa no interior do compilado que guarda os versos de Cecília, os meus preferidos. O papel era comum, a caligrafia artística. Li a primeira sentença e tornei a dobrar o papel. Não! Não era verdade! Eu não podia aceitar! Tive ímpetos de atira-lo longe. Quis amassa-lo, com raiva, mas meu músculos tesos pelo sangue congelado em minhas veias me foram um empecilho. Ofegante, pensei que ia desfalecer. Uma nuvem escura já pairava em frente a meus olhos quando uma voz feminina perguntou-me se eu passava bem. Engolindo em seco e sorrindo forçadamente menti á gentil mulher.

Mais do que depressa fugi dali. Refugiei-me em um canto e levei o manuscrito ao nariz, porém nada aspirei além do cheiro da celulose. Que ódio, que dor! Levei o escrito ao peito e ali o mantive por sobre o meu coração até a torrente de lágrimas cessar e com os olhos embaçados o reabri. Sim, a verdade estava ali: o mesmo papel comum, a mesma caligrafia artística, a narrar o seu adeus:

Caríssima,


          Sinto profundamente em assim tão covardemente me despedir. Não suportaria ver em teu rosto qualquer expressão de dor depois de ter sido iluminado tantas vezes com a luz do teu sorriso.
             Não quero que te sintas culpada por coisa alguma, pois mal nenhum me causastes. A verdade é que sou um vilão, um pérfido, que não merece tua amizade e muito menos o teu amor. Sim! Sei que  me amas e eu também te amei desde o primeiro momento, quando teu rosto de anjo remeteu-me a sensações que nunca antes experimentei por mulher alguma. Nunca perguntei teu nome, entretanto estou certo de que é tão lindo quanto a tua voz, ora de menina, ora tão mulher. Insisti em encontra-la porque demorei de me dar conta de que tu não eras uma miragem, fruto da loucura de minhas muitas letras e foi nesse instante que se iniciou o meu delito, pois pareço vivo, mas estou morto. Uma silenciosa enfermidade está me tomando a vida e contra ela já desisti de lutar. Decidi viver o resto de meus dias de maneira inconsequente uma vez que a medicina já foi vencida e vi que me será mais digno cessar de existir, quem sabe, como um boêmio e, assim, quando finalmente cair morto, seja minha aparência menos asquerosa que a do moribundo que aguardou a senhora do destino de todos nós em cima de um leito.
          Melhor será para ti, minha querida, nos separarmos agora, para que teu sofrimento seja menor. É o mínimo que posso fazer. Melhor teria sido não ter eu te causado incômodo nenhum, contudo não posso fazer voltar o tempo. Espero que me perdoes. Tu tens uma vida inteira pela frente e muitos sonhos a sonhar. Não sei para onde vou, mas quero que saibas que não a esquecerei minha Iracema, minha Isolda, minha Julieta.
            Termino aqui permanecendo assim, inominável a fim de que seus lábios não sejam maculados pelo nome de alguém que não merece lembrança. Adeus.


Dobrei a carta de modo a ficar bem pequenininha e a escondi entre os seios. Voltei para casa e vivi muitos dias de luto pelo meu amor, meu Tristão, meu Romeu, com quem vivi uma eternidade de mil, trezentas  e sessenta e oito horas.

sábado, 16 de junho de 2012

A Era do Conhecimento e a Emburratização

Na década de oitenta, Peter Drucker previu que entraríamos na era do conhecimento e isso é verdade - estamos vivendo nela, mas percebi também que há uma força trabalhando contra o avanço do saber e aqui a denominaremos de "emburratização".

Há quem possa julgar o que Drucker chamou de era do conhecimento como uma coisa contemporânea, mas a emburratização, (termo a que peço licença ao querido leitor para usa-la sem me valer das aspas tal como fiz no título) não. Ela já vem de longas datas, do tempo em que alguém (diga-se sempre) se ocupou em espalhar que o saber e o conhecer é privilégio de poucos, que a ignorância e a felicidade andam de mãos dadas, que estudar é para quem não nasceu bonito e, portanto, não pode ser artista, essas coisas.

O sabido incomoda. Basta que alguém demonstre ter um pouquinho mais de "tutano" para começar a sofrer bullyng de variadas formas. Diante disso, o geniozinho, coitado, em busca de aceitação, decide emburrecer ou se manter na média.

Como foi dito no segundo parágrafo, não são de agora as astutas manobras a fim de manter o povo na ignorância. O dominador sabe que não pode com cabeças pensantes. Vejam por exemplo o que ocorria em nosso país durante a ditadura. Quem se atrevia a pensar diferente era tachado de subversivo e tornava-se alvo de perseguição. Os estudantes de Filosofia, Sociologia ou de qualquer outra "ia" que ensine a pensar, pior ainda! Chegaram até a criar os cursos de nível médio técnico de modo a ninguém precisar (leia-se impedir, evitar...) ir a faculdade.

Refletir a respeito destas coisas me faz indagar cada vez mais que paradoxo é esse: é a emburratização andando em paralelo à indústria do conhecimento e, diga-se de passagem, que força ela tem! Ao ligar a TV, vemos as mulheres frutas, condimentos e répteis, com seus corpos esculpidos disseminando (ou ressuscitando) a cultura da mulher objeto, novelas, os realities besteiras, besteiras e besteiras e outros programas que atentam, afrontam e ofendem nossa inteligência tendo altos índices de audiência para sorte deles e infortúnio nosso. Essas coisas além de alienar, atrai outra sorte de prejuízos.

Estudar, no entanto, continua sendo pré-requisito pra se arrumar um emprego e, consequentemente, ganhar dinheiro. O mercado de trabalho, hoje mais exigente, sempre requereu de nós a qualificação. Diante disso,  continuando o raciocínio ante ao paradoxo citado no parágrafo três: milhões correm em busca do conhecimento que lhes dará o diferencial a fim de conquistar a tão almejada colocação e, diga-se de passagem, não qualquer colocação, e sim à que o esforço seja mínimo e o retorno máximo. Imagino que alguém aí do outro lado acabou de gargalhar e exclamar: "É assim mesmo!". Que se danem os investimentos a longo prazo! Queremos plantar agora e colher ontem!

Veja o que escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer, na primeira metade do século XIX:


"Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância para a instrução e a verdade.
... E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e ganhar ares de importantes. A cada trinta anos desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. - Quanto aos estudos feitos simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta." (A arte de escrever, Schopenhauer, 2005, L&PM Editores, pag 19)

Adaptando a passagem acima ao nosso contexto, veja se não é isso que estamos vivendo? Ainda citando Schopenhauer (2005), o que se tem em mente hoje não é a instrução e sim a informação. Busca-se os títulos. A palavra profissional tem perdido seu sentido etimológico. O bom agora é estudar para ser "doutor". Eles estão errados? Em uma análise superficial, não. Para que um saber profundo, genuíno e de qualidade em um mundo que lhe oferece em troca a massificação e a alienação? Pobre de mim e meus "textos cabeça" e que alegria a minha ter quem me leia!

Disse Jesus: "Entrai pela porta estreita porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela". Quem tem ouvidos para ouvir ouça e bem-aventurados são os que leem as entrelinhas. Do contrário, que Deus tenha misericórdia de nós.