“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Ideias e Oportunidades de Negócio


Diferentemente do que parece ser, nem toda ideia é uma oportunidade de negócio. As ideias são bastante genéricas. As oportunidades de negócio, não. Para exemplificar, o que você escolher para presentear o seu amor ou até mesmo o que vier a sua mente como cardápio para o jantar, são ideias, porém, em tese, não significa que essas abstrações podem ser transformadas em oportunidades de negócio. Complicado? Então prepare-se, pois a coisa só piora (brincadeirinha): nem toda ideia, aparentemente uma boa oportunidade de negócio, deve ser posta em prática, mas calma! Vamos esclarecer as coisas.

A priori, destaquemos a diferença entre as duas expressões:

Ideia – existe em maior quantidade. Pode ser uma abstração; intuição; plano. Toda oportunidade de negócio surge através de uma ideia, mas não o inverso.

Oportunidade de negócio – é a ideia economicamente viável, mas cuidado! Negócios, a princípio, economicamente viáveis não são sinônimos de boas oportunidades de negócio. Tem que haver um filtro e, neste caso, a ferramenta ideal é um estudo de mercado, seguido de um bom plano de negócio.

Feitas estas considerações iniciais, aqui vai um importante conselho: não queime etapas, tampouco tenha pressa em concluí-las, principalmente se a etapa em questão for a de planejamento. Tenha em mente que o planejamento será a causa do sucesso ou do fracasso do seu empreendimento, isso sem falar na ingerência, mas isso é assunto para outra hora.

A carga tributária brasileira é muito alta. O Estatuto das Micro e Pequenas Empresas veio para facilitar as coisas, mas mesmo assim o fardo a carregar é pesado para o iniciante. Além disso, é imprescindível que aquele que deseja empreender entenda que, apesar de ter se tornado seu próprio patrão, terá jornadas de trabalho bastante excedentes à que se submete o trabalhador formal e que terá que abdicar, inclusive, de seus finais de semana e feriados. Mesmo que seu capital inicial seja suficiente, até mesmo, para contratação de mão-de-obra, a presença do dono é primordial, pois como diz aquele ditado: “o olho do dono é que engorda o gado”.

Dando continuidade ao presente postulado e, aqui acreditando que a ideia principal do que seja uma ideia e uma oportunidade de negócio foi absorvida, importante salientar que a oportunidade de negócio e o empreendedor não podem estar desarmonia. Significa dizer que a oportunidade deve se ajustar ao empreendedor. Não é recomendável que uma pessoa resolva ingressar em um mercado que não lhe atrai e aqui não estou falando de lucro. Dinheiro não é tudo! Verdade é que a oportunidade pode ser também definida como aquilo que gera lucro, todavia há outras questões envolvidas, tais como perfil individual, know-how e motivação. Geralmente, o que leva um indivíduo a empreender é a possibilidade de trabalhar para si e, principalmente, trabalhar com o que gosta e é sobre este último que versa este parágrafo. De fato, não há nada que proíba uma pessoa a enveredar por certo negócio face ao alto lucro que este venha a render, mas quem assim procede corre o risco de após algum tempo descobrir que não se identifica com aquilo, mas aí não mudará de ramo porque “o aquilo está dando dinheiro” e, a depender da situação, há a possibilidade desse dinheiro ser gasto com terapia e antidepressivos.

Outrossim, e, como já dito em parágrafos anteriores, o que vai separar a ideia da oportunidade de negócio é o estudo de mercado e, posteriormente, a confecção de um plano de negócio. Saliento, contudo que a construção deste último só ocorrerá após o empreendedor decidir qual será o seu produto ou serviço. Com referência ao primeiro, a pesquisa mercadológica pode acompanha-lo, todavia com aquele não se confunde. O estudo de mercado possibilita a identificação da demanda ou a criação desta, como também analisa e antevê problemas conexos. A pesquisa mercadológica, do produto ou serviço, por sua vez, é que irá prover o administrador de dados qualitativos e quantitativos, que podem ser relativos à idade, sexo, hábitos de compra, etc.

Por fim, o uso das ferramentas acima é o que possibilita, como já dito, ao empreendedor diferenciar a ideia da oportunidade de negócio e assim revelar informações importantíssimas tais como a existência ou não de concorrentes, quais as possíveis barreiras para novos entrantes e, sobretudo, a viabilidade do negócio. Frise-se que esta tem que ser entendida como sobrevida (inclusive no aspecto ambiental), pois há determinadas ideias que podem ser rentáveis por certo período e depois sofrerem saturação. O ideal é que o produto ou serviço seja concebido de forma a agregar valor ao cliente e no decorrer de seu ciclo de vida sofra alterações com vistas a não enfadar o consumidor. Alem disso, deve dificultar, ao máximo, a ação da concorrência.

REFERÊNCIAS



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Frustrações de Alice

A vida adulta nos traz a liberdade para conduzir nossos caminhos, bem como a possibilidade de tomarmos decisões por nossos mesmos, entretanto não há bônus sem ônus. Alice aprendera tal lição e tanta outras por intermédio de sua saudosa mãezinha.

Metade da manhã havia se consumido. O sol brilhava tímido no céu acompanhado de nuvens esparsas e esquálidas. O vento parecia ter se recolhido, pois não se podia visualizar seu movimento por entre a vegetação. Plúmbeas divisórias e um mobiliário cor de gelo eram o cenário que compunha aquele ambiente interno em que fisicamente a balzaquiana se localizava. Sua mente, por sua vez, viajava por entre aquele quadrado da natureza; moldura da janela cujo diâmetro lhe permitira dali partir e misturar-se aos naturais, amigos seus não fluentes em língua portuguesa, mas que lhe entendiam tão bem.

Alice não conhecia para a situação que até então atravessava outro remédio senão liberar seu cognitivo tão poderoso e veloz - saneamento melhor não existia. Frustrada estava. Ansiosa, desgostosa. Aquele querer lhe devorava. Apaixonara-se e se deixara arrebatar por essa paixão como há muito não se permitia, mas frustrara-se. Agora, só o tempo lhe embalsamaria as feridas e a homeopatia daquela solidão reflexiva, seria seu elixir.

Se sabatinada fosse, não saberia dizer o que dera de errado. Os olhares, as gentilezas, as amabilidades e os elogios mútuos eram típicos dos enamorados. Sua cabeça doía devido à hiperatividade de uma gama de conhecimentos de tão pouco proveito naquele momento. A ciência nunca pôde aprisionar qualquer emoção em um tubo de ensaio. As coisas do coração jamais se confinariam nas paredes frias de qualquer laboratório. Como então encontrar um culpado ou uma explicação? Teriam sido suas ações insuficientes ou excessivas? Quem seria capaz de lhe responder tal indagação, uma vez que o detentor de tal conhecimento é justamente o objeto de seu rejeitado afeto?

Alice remexeu-se na cadeira e afastou uma mecha de cabelo que lhe caía à testa para depois finalmente voltar sua atenção a pilha de documentos a sua frente. Suspirando impacientemente, sorveu um gole d’água. Seus lábios estavam secos, mas dos beijos dos quais não usufruíra e seus ossos frios dos abraços que não recebeu. Depois dali deslocar-se-ia ao habitat da escuridão e da lástima, onde um dia fora casa adornada e pronta para o amor; e o leito antes reservado ao laço de dois corpos envolvidos pelo torpor do prazer, servia de jazigo às lágrimas de lamúria e desapontamento; soluços e gemidos tomaram o lugar da orquestra que entoaria o tema dos amantes, hoje falsos amigos, fadados aos salamaleques que a boa educação exigia.


Esse último pensamento fez com que Alice remexe-se novamente e liberasse um novo suspiro. Precisava ser compassiva, pois assim quem sabe seu opróbrio seria de alguma valia. O outro lado era fina flor a desabrochar; era menino trôpego em suas primeiras passadas, que acha que ama e achou que amou, contudo nada ainda viveu. Apenas contempla sua face no espelho, como Narciso via-se em águas cristalinas. Pobre querido de todas e amado de nenhuma.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Organizações para inglês ver


Pensa que viver de aparências é algo exclusivo da vida privada? Ledo engano. Empresas também vivem de aparências.

Toda organização tem sua imagem, anseia pela construção de uma ou por sua melhora. A imagem organizacional na verdade é uma estratégia de segmentação. O ofertante de determinada demanda, a partir de sua inserção no mercado, escolhe como deseja segmentar-se: por indústria, também conhecida como a de não-diferenciação (abarcar o maior número de consumidores que puder, geralmente valendo-se da estratégia do baixo preço), por diferenciação (o número de consumidores torna-se mais restrito, uma vez que a adição de uma singularidade em um produto ou serviço pode encarece-lo) e, finalmente, por concentração (um segmento é escolhido como prioridade e a este são dirigidos todos os esforços empresariais).

A imagem, no entanto, objeto de nosso estudo no presente momento será a aparência, a embalagem, o invólucro, em um aspecto mais interno, apesar de os termos dos quais há pouco me utilizei darem ideia de exterior. Cultura organizacional talvez seja o termo que aqui melhor se aplicasse, no entanto, não desejo que este postulado receba rótulo algum senão o seu título. Em outras palavras, desejo abordar aqui as organizações para “inglês ver” em seus diversos aspectos, seja para denúncia do gestor que finge investir em qualificação profissional ou a exposição do colaborador que se especializou na arte de parecer ocupado (vadiagem sistemática). Saliento, no entanto, que quando digo denunciar e expor faço alusão à descrição do comportamento/atitude e não a fazer menção a este ou aquele individuo em específico. 

Quando iniciei o curso de Administração, Recursos Humanos era a área que menos me atraía, mas por incrível que pareça, esta tendo sido o alvo de meus melhores momentos  de inspiração (!). Não me considero uma especialista, contudo me preocupo com as pessoas. Quiçá tal altruísmo tenha origem em minhas experiências como colaboradora. Prestei serviço em lugares que eu simplesmente odiava, porém a precisão era o que me motivava levantar da cama todas as manhãs. Psicologicamente, era uma prisão para mim, pois além do salário ser uma droga, as relações interpessoais eram sofríveis. Lembro-me sempre de Drucker que, em certa ocasião, disse a um grupo de empresários de diversos ramos que os segmentos por eles explorados se resumiam em um só: trabalhar com pessoas. Tem líder, por sua vez, que não enxerga isso. Sua visão se limita aos resultados da DRE’s. Lamentável...  

Sem mais delongas, conceituo as organizações para “inglês ver” como aquelas que adotam novas concepções e conceitos da Ciência Administrativa, no entanto, tais medidas não mudam coisa alguma. Em outras palavras, podemos dizer que tais empresas são semelhantes aos que seguem tendências só para parecer moderninho sem, contudo transformar nada mais que o seu exterior. Medidas assim podem até levar seus administradores para a capa das revistas ao passo que seu passivo trabalhista aumenta concomitantemente ao nível do absenteísmo. E como se isso já não bastasse, vamos lá colocar um para fazer o trabalho de três, superespecializa-los ao ponto de não ter ninguém que o substitua e aí, como dizem por aqui: “fica tudo lindo na Bahia”.

 Já ouviram falar em lucro envenenado? Pois é, ele existe e das empresas que tenho notícia que assim galgavam degraus faliram ou foram vendidas.

Há também organizações que são administradas aristocraticamente. O corpo funcional divide-se em “camadas sociais” onde os privilégios se concentram por sobre os que ocupam o topo piramidal e na opinião desta bacharela são as que mais se encaixam no modelo que intitula o presente postulado. A comunicação organizacional é feita em nome da comunidade, entretanto, tal como o corpo fala, atitudes, idem. Não adianta frases de efeito em cartões virtuais comemorativos se apenas a nata é sujeito dos benefícios institucionais.


Fico a imaginar se recebêssemos (mais) pressão internacional tendente a abolir a prática empresarial em tela, tal como foi à época do Brasil Imperial quando a Inglaterra nos ameaçou, a ponta de espada, para que a escravidão fosse abolida. Teríamos líderes mais humanos? Haveria menos desrespeito às normas trabalhistas? Talvez, mas a questão aqui é cultural. Enquanto as figuras do senhor de engenho, do feitor e do escravo estiverem em nós enraizadas, árdua e quase impossível, será a  tarefa de inserção de novos paradigmas acompanhada da completa extinção dos antigos.

Pensamento do dia

A sabedoria alcança àqueles que a buscam, no entanto a estrada tem de ser ladrilhada pela perseverança e pela abdicação.