"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

sábado, 5 de maio de 2012

Alice

O raiar de mais um novo dia tiraram Alice da cama. Não precisava se dar ao trabalho de se levantar tão cedo, porém Alice apreciava as primeiras horas da manhã. O período de cinco as sete tinha para ela um odor singular. Tudo parecia estar igualzinho às vinte e quatro horas anteriores, mas era um novo dia, uma página em branco aguardando a reescrita; tempo de continuar o que ficou inacabado ontem. Roupas já podiam ser vistas balançando ao varal, a vizinha barulhenta do 7-b já escutava sua música de péssima qualidade, passarinhos se agitavam nos fios de alta tensão e não muito longe dali pneus cantavam.

Vencida a preguiça matinal, a mulher de curto cabelos vermelhos alongou seus magros músculos e se dirigiu a cozinha. Seu desjejum foi um copo bem grande de suco de laranja acompanhado por um sanduíche idem à frente da TV. O programa era legendado, mas a ruiva não prestava muita atenção nas duplas fileiras de diálogos que rapidamente iam e vinham. Ateve-se a estudar a linguagem corporal das personagens ao tempo em que se divertia com suas caras e bocas. Interessante era conjecturar a respeito daquele contexto onde de maneira bem humorada alguém entendeu por bem expor as aventuras e desventuras impostas pela regra do conviver. Da mesma forma era intrigante entender como alguém cercado por tantos podia se condicionar a uma existência solitária. Grande parte das pessoas que conhecia encaixavam-se neste perfil com maestria: seus perfis nas mais baladas redes sociais continham um número expressivo de "amigos", contudo deixavam a desejar no quesito interação.

Crescer para aquela jovem de vinte e cinco anos significou muitas coisas além de atingir 1,72 de altura. Ninguém entendeu quando ela deixou a casa de seus pais, tampouco quando escolheu uma profissão pobre em status, mas assim era Alice. Quem bem a conhecia, sabia que sua ideia de amadurecimento baseou-se em não seguir o curso desse mundo; não se dobrar diante da ditadura da estética ou qualquer outra coisa que significasse cerceamento de liberdade. A tutela do Estado e a obediência, primeiramente as autoridades paternas, já lhe bastavam para aquilo que lhe significava bem comum não beirar ao caos. Sua organização e sistemas eram únicos para infortúnio dos invejosos que nunca se importaram em deixar o cômodo banco da mediocridade.

Alice imunizou-se, sem a mínima ideia de como ou quando, ante as patologias sociais e não se envergonhou em procurar Freud a fim de que este lhe explicasse e desmistificasse as três figuras do seu eu. O resultado foi uma mulher mais forte, mais segura de si e menos preocupada com o que tem dado e recebido. Aprendeu que frutos geralmente não são colhidos imediatamente e que é importante improvisar com aquilo que se tem em mãos.

Dificuldades em se moldar ao que o mundo entende como social ainda existiam, entretanto cada pôr do sol e cada amanhecer significavam novas chances, novas possibilidades, novas maneira de ver e ouvir, de sentir, aspirar. Rico era o terreno a ser explorado e assim Alice se via fazendo ciência. Acreditava em obter sucesso na coletividade em um pequeno universo, à princípio, preço pequeno diante de um bem maior e mais lucrativo, não exatamente significando cifrões. Como todo peregrino nesta terra, era preciso continuar seguindo viagem, parando aqui e ali para descansar até alcançar a Terra Prometida e, é claro, não desprezar a figura dos seres com os quais iria cruzar durante a jornada. Gente de toda parte, de variados povos, línguas e nações; cada um do seu jeito, pisando devagar em terra estranha; forasteiro, profeta sem honra em sua própria casa, mas batalhador.

Ninguém nasceu para viver só e Alice cria que além da bonança no lugar onde mana leite e mel, se uniria aos seus. Outros incompreendidos, rejeitados e órfãos seriam seus irmãos e juntos fariam a diferença. Esse número era bastante insignificante agora, contudo suas esperanças de que este aumentasse com o tempo era enorme. O pobre, o doente, o oprimido, o caridoso, o samaritano e toda espécie de enfermos encontrariam a cura, o aconchego, o alívio, a vida, o pão, e o manancial de águas doces sob os galhos da mesma árvore em que vinha fazendo morada, nascida do mesmo grão de mostarda que outrora fora julgado estéril.

Alice quase não cabia em si mesma. Seus atributos físicos não eram muitos e o choque que causava um paradoxo, pois tanto podia passar invisível como atrair todos os olhares para si. De uma pessoa desse gabarito não se sabia o que dizer e de semelhante maneira o que se pensar, mas caber em si mesma não era nela o ser presunçoso. Fora um bebê mui desejado, mas não ocupara por muito tempo a cadeira de preferida de seus pais. Como toda adolescente teve sua crise de identidade e era incapaz de analisar com qual grau de "maturidade" atingiu a idade adulta. Só sabia que foram tempos difíceis que graças ao bom Deus tinham ficado para trás e hoje, o que ela podia chamar de experiência, julgava que melhor servia se fosse para ajudar o seu próximo sem sensacionalismos. Não importava quantas pedras lhe atirariam. Alice nascera para ser Alice. Ponto final.