"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Organizações para inglês ver


Pensa que viver de aparências é algo exclusivo da vida privada? Ledo engano. Empresas também vivem de aparências.

Toda organização tem sua imagem, anseia pela construção de uma ou por sua melhora. A imagem organizacional na verdade é uma estratégia de segmentação. O ofertante de determinada demanda, a partir de sua inserção no mercado, escolhe como deseja segmentar-se: por indústria, também conhecida como a de não-diferenciação (abarcar o maior número de consumidores que puder, geralmente valendo-se da estratégia do baixo preço), por diferenciação (o número de consumidores torna-se mais restrito, uma vez que a adição de uma singularidade em um produto ou serviço pode encarece-lo) e, finalmente, por concentração (um segmento é escolhido como prioridade e a este são dirigidos todos os esforços empresariais).

A imagem, no entanto, objeto de nosso estudo no presente momento será a aparência, a embalagem, o invólucro, em um aspecto mais interno, apesar de os termos dos quais há pouco me utilizei darem ideia de exterior. Cultura organizacional talvez seja o termo que aqui melhor se aplicasse, no entanto, não desejo que este postulado receba rótulo algum senão o seu título. Em outras palavras, desejo abordar aqui as organizações para “inglês ver” em seus diversos aspectos, seja para denúncia do gestor que finge investir em qualificação profissional ou a exposição do colaborador que se especializou na arte de parecer ocupado (vadiagem sistemática). Saliento, no entanto, que quando digo denunciar e expor faço alusão à descrição do comportamento/atitude e não a fazer menção a este ou aquele individuo em específico. 

Quando iniciei o curso de Administração, Recursos Humanos era a área que menos me atraía, mas por incrível que pareça, esta tendo sido o alvo de meus melhores momentos  de inspiração (!). Não me considero uma especialista, contudo me preocupo com as pessoas. Quiçá tal altruísmo tenha origem em minhas experiências como colaboradora. Prestei serviço em lugares que eu simplesmente odiava, porém a precisão era o que me motivava levantar da cama todas as manhãs. Psicologicamente, era uma prisão para mim, pois além do salário ser uma droga, as relações interpessoais eram sofríveis. Lembro-me sempre de Drucker que, em certa ocasião, disse a um grupo de empresários de diversos ramos que os segmentos por eles explorados se resumiam em um só: trabalhar com pessoas. Tem líder, por sua vez, que não enxerga isso. Sua visão se limita aos resultados da DRE’s. Lamentável...  

Sem mais delongas, conceituo as organizações para “inglês ver” como aquelas que adotam novas concepções e conceitos da Ciência Administrativa, no entanto, tais medidas não mudam coisa alguma. Em outras palavras, podemos dizer que tais empresas são semelhantes aos que seguem tendências só para parecer moderninho sem, contudo transformar nada mais que o seu exterior. Medidas assim podem até levar seus administradores para a capa das revistas ao passo que seu passivo trabalhista aumenta concomitantemente ao nível do absenteísmo. E como se isso já não bastasse, vamos lá colocar um para fazer o trabalho de três, superespecializa-los ao ponto de não ter ninguém que o substitua e aí, como dizem por aqui: “fica tudo lindo na Bahia”.

 Já ouviram falar em lucro envenenado? Pois é, ele existe e das empresas que tenho notícia que assim galgavam degraus faliram ou foram vendidas.

Há também organizações que são administradas aristocraticamente. O corpo funcional divide-se em “camadas sociais” onde os privilégios se concentram por sobre os que ocupam o topo piramidal e na opinião desta bacharela são as que mais se encaixam no modelo que intitula o presente postulado. A comunicação organizacional é feita em nome da comunidade, entretanto, tal como o corpo fala, atitudes, idem. Não adianta frases de efeito em cartões virtuais comemorativos se apenas a nata é sujeito dos benefícios institucionais.


Fico a imaginar se recebêssemos (mais) pressão internacional tendente a abolir a prática empresarial em tela, tal como foi à época do Brasil Imperial quando a Inglaterra nos ameaçou, a ponta de espada, para que a escravidão fosse abolida. Teríamos líderes mais humanos? Haveria menos desrespeito às normas trabalhistas? Talvez, mas a questão aqui é cultural. Enquanto as figuras do senhor de engenho, do feitor e do escravo estiverem em nós enraizadas, árdua e quase impossível, será a  tarefa de inserção de novos paradigmas acompanhada da completa extinção dos antigos.

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