"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

terça-feira, 4 de junho de 2013

A Vizinha da Rua Detrás

Todo mundo ficou olhando a vizinha da Rua Detrás a se locomover ladeira abaixo com aquele enorme saco de lixo nas costas. Ninguém estava entendendo nada, muito menos meus amigos e eu, que interrompemos nossa pelada no instante em que ela cruzou o nosso campinho. Os comentários foram de todos os tipos, inclusive a surpresa de ver uma mulher carregando tamanho peso, porém eu confesso que a princípio meu primeiro pensamento foi imaginar se no meio daquilo tudo tivesse algo que a gente pudesse trocar por algodão doce, o que, aliás, não pude deixar de compartilhar com a turma e, após uma rápida deliberação, resolvemos segui-la discretamente e aguardar ela lançar o volume lá no “cestão”, apelido dado ao recipiente que armazenava todo o descarte das caixas menores antes de o carro de lixo fazer a coleta.

No caminho, alguns rapazes foram se oferecendo para ajudar, porém ela recusou auxílio. Não dava para escutar direito qual era sua desculpa diante de cada recusa, entretanto nos pareceu que alegava ser o conteúdo do saco algo parecido com lixo tóxico. Ao ouvirmos isso, meus amigos e eu até pensamos em desistir, mas quando imaginávamos o algodão doce derretendo em nossas bocas ao passo que pintava as nossas línguas de rosa, nos fazia recuperar a coragem e seguir em frente. Mais adiante, contudo nos vimos diante de um novo impasse, pois para nossa surpresa, a vizinha, não entrou na rua que fazia esquina com a banca do Seu Geninho. Quase a perdemos de vista devido ao tempo que levamos parados tentando adivinhar qual seria então o seu destino.

Algum tempo e muitos passos depois, finalmente chegamos ao local do descarte. Camuflamos-nos por detrás das ruínas do local onde um dia funcionara uma locadora de veículos, demolida com o fito de abrir espaço para a nova avenida. A vizinha então acocorou-se e passou a esvaziar o saco, porém não do modo como geralmente se trata coisas de que não se deseja mais. Ela ia tirando cada idem bem devagarzinho de dentro da embalagem e depois os arrumou como se pusesse a mesa para um banquete. Eu e meus amigos nos entreolhamos confusos e daí sugeri que fôssemos embora, uma vez que eu já deixara de vislumbrar qualquer chance de lucro naquela empreitada, todavia o Ubaldo, de nós três o mais velho, ordenou que nos calássemos e eu, que nunca fui muito de acatar ordens, senão de meus pais, quis pestanejar, entretanto o grito emitido por Naldinho, nosso caçula nos forçou a centrarmos novamente a devida atenção ao que se sucedia e foi aí que, para espanto geral, percebemos que a vizinha se preparava para tocar fogo em tudo. Sem saber o que dizer, levei ambas as mãos à cabeça em sinal de desespero e o Ubaldo fez o mesmo, exclamando : “Oh meu Deus!” Naldinho, que além de pequeno era deveras afoito partiu como um raio para junto da mulher e começou a suplicar-lhe para não fazer aquilo. Juntamos-nos a ele, contudo não aderimos a súplica. Passado esse instante, ela fez com que nos déssemos as mãos e nos explicou que tudo aquilo que víamos, apenas com nossos olhos naturais, eram fardos os quais ela decidira não mais carregar: dores, desilusões, promessas quebradas, falsas promessas, amores perdidos, paixões não correspondidas, traumas.

Ao final da narrativa, Naldinho, tomado de intensa compaixão, não se opôs mais ao seu intento e a mulher, estranhamente contente com aquilo, lançou mão mais uma vez do pavio que improvisara com uma folha de papel torcido e foi acendendo as labaredas. Ficamos ali durante não sei quanto tempo assistindo o fogo a tudo consumir e depois a acompanhamos até a porta de casa.

Na manhã seguinte, mal tinha o sol despontado no céu, quando acordei com minha mãe me sacudindo e me avisando que os meninos estavam a minha espera. Disparei em direção à sala ignorando completamente o seu aviso para que eu assim não o fizesse descalço e Naldinho, ao me ver, me abraçou em prantos escondendo seu rosto rechonchudo em minha barriga. Senti um grande nó se formar em minha garganta e fitei Ubaldo. Ele balançou discretamente a cabeça em sinal positivo confirmando o que eu em silêncio lhe indaguei.

Chegamos à Rua Detrás respectivamente acompanhados de nossos pais e nosso semblante decaiu ainda mais ao depararmos com a caixa fúnebre no centro do cômodo abarrotado de gente. De uma forma mórbida, havíamos virado celebridade, pois afinal tínhamos sido os últimos a vê-la com vida. Nunca me esqueço de quão sereno estava seu rosto envolto naquelas flores.

Amarguei juntamente com meus amigos ainda por muitos dias a esdrúxula dor que nos sobreveio por conta de sua partida. Quando a saudade era demais íamos ás escondidas (por causa da mãe do Naldinho que, por ser um tanto supersticiosa, proibira-o de faze-lo) até o local onde ocorrera nossa aventura e ficávamos lá, olhando para o nada por algumas horas ou então juntávamos uns gravetos e fazíamos uma fogueirinha a fim de passar o tempo vendo as chamas crepitando. Era bonito de se olhar as labaredas mudando de cor e balançando ao sabor do vento.


Hoje, toda vez que me recordo dessa história, assim procedo com a consciência de que aquele episódio fora nosso primeiro contato com o mundo adulto. Passei por dores, desilusões, quebrei promessas, bem como simulei algumas; pranteei por amores perdidos, paixões não correspondidas e traumas, mas ao cabo de alguns anos, achei por bem fazer uma fogueira como aquela, porém a fiz em meu coração.

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