“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A velha casinha

Era uma vez uma velha casinha à beira do caminho. Ninguém sabia precisar há quanto tempo fora construída. Quem por ali passava só podia afirmar que esta existia desde sempre.

Da sua varanda podia-se ver tanto o nascer quanto o pôr-do-sol. Estava desabitada, mas mesmo assim uma grama fresquinha a cercava e flores cresciam aos pés da mureta de pedras fogueadas entrecortada por um também baixinho portão de madeira da cor do tempo. Seu telhado era de um vermelho que não se via mais. Cada pedaço dele fora moldado por alguém que não dominava a língua mãe; familiares daquela gente boa que tem vício na fala, segundo Oswald de Andrade. Estes dizem "mio" para milho, e "pió" para pior, mas são mais brasileiros que os da cidade grande, que os que nasceram na "capitá".

Por aquele caminho passava gente de toda gente e não havia este a quem a velha casinha não surpreende-se. Ninguém entendia porque o passar do tempo lhe fazia tão bem sem a interferência de um mantenedor e muito menos quem era seu jardineiro. Mas por que não prestigiar seus atributos? O vento sopra e não se sabe de onde ele vem , tampouco para onde vai, entretanto ninguém quer viver sem ele.

Era aquela casinha a inspiração dos poetas e dos menestréis. Incontáveis versos cantaram e encantaram o místico lugar. Artistas de rua a levaram para seus palcos e de seu estilo nasceu outras arquiteturas. A frondosa árvore a sua esquerda é morada para o passaredo que desperta o viajante que se acolhe da chuva debaixo do seu alpendre. Do seu interior ninguém desfruta; santuário que nem o pior dos vândalos se atreve a violar. Qualquer um que sonha se torna seu devedor: o boêmio, o poeta, o músico, o artesão, o lírico, o erudito, o multifacetário, o eclético, o filho e também o pródigo; os ébrios e os sóbrios são seus discípulos; uma voz que chama, mas em vão, pois muda é e calada muito fala já que corações ardem e bocas que enchem por causa dela.

Dizem que por muitos anos ali morou um homem de desconhecida origem e genealogia. Ele sorria para todos os que passavam, especialmente para as crianças. Seu rosto era sereno e seus cabelos brancos. Um suspensório lhe segurava as largas calças. Despertava a bondade e a compaixão dos que o viam, alguns como solitário, outros como a diferença em meio a tanta iniquidade.

Sua alma nunca se abatia, ignorava-se contudo em que ou em quem se baseava sua felicidade. "Cada um tem porquê viver", o anônimo um dia afirmou, mas tanto se pode buscar felicidade ao som da harpa como em meio a escuridão voluntária, visto que a janela marejada por múltiplas gotículas de chuva ou a uniformidade e harmonia do canto gregoriano, vazio do som das cordas e das teclas, é belo e ambos podem trazer paz e música ao fiel.

Marcou assim presença esse desconhecido e célebre senhor, que um dia desapareceu e quem o amava ainda nega que ele morreu, se foi; sua consciência assim se desfez e desse modo foi ele juntar-se aos que nada sabem, mas que a saudade faz crer que com bons olhos nos vigia do Céu, morada do Altíssimo, a quem se destina o retorno do espírito que Ele mesmo nos deu, para descrença do agnóstico e recusa do ateu.

A casinha, por sua vez, ali perdura.  Linda! Charmosa, sem artíficios. Seu  era uma vez, para nós, aqui termina, se feliz, não sabemos, mas ela existe! Levanta  e vê: branca, rosinha, caiada da cor que se imagina; cheia de estampas ou de muitas janelinhas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário