"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Paraíso





Parado em um momento no tempo, tive tempo para sair de mim. Viajei a um lugar paradisíaco e lá encontrei seres mágicos. Uma criança de cabelos amarelos me teceu uma coroa de flores e depois atravessamos um rio cujas águas eram mui cristalinas.

Do outro lado da margem, outros seres fabulosos me fizeram festa e com eles me alegrei até fadigar. Depois disso, dormi entre as estrelas. Meu travesseiro era de nuvens. Não sonhei. Adormeci e despertei ao tempo de uma piscadela. Vi o sol mais amarelo a dar giros pelo firmamento a arrancar gargalhadas dos crisântemos e me pus a pensar que lugar seria aquele. Alguém me respondeu que eu me encontrava em meu interior e aquela era minha literatura. Minha coroa outrora de flores agora era do ouro mais fino e as mais preciosas pedras a adornavam, sim! Ali eu era o rei! Aquele momento no tempo me arrebatou os sentidos e me trouxe para junto de minhas criaturas, meus súditos leais que nunca padeceram tristeza e tampouco conhecem o pranto; um lugar onde o vento canta e as colinas lhe fazem coro, onde o alimento vem da novidade da terra e a chuva pinta a grama de um verde mais forte ressaltando o cheiro bom da natureza e onde a cerejeira dá suas flores na estação certa.

Não desejo eu voltar à realidade onde tenho que usar máscaras. Quero ser eu. Quero cruzar os céus descalço e de calças curtas como em meus folguedos de menino. Quero ser um artesão. Quero tirar da bruta madeira a sua forma. Quero dedilhar a harpa e atrair as musas com minha canção. Quero ver seus sedosos vestidos bailando ao sabor da brisa. Quero contemplar o ir e vir do passaredo nas matas e florestas.

Alguém me toca o ombro e me deparo com meu reflexo. É a razão a me despertar e a insistir que tenho que voltar. O ocaso se aproxima. Logo, pontos vermelhos aparecerão aos pares e se unirão em milhares a fim de cobrir a extensa trilha. Minhas mãos terão que tocar a gélida realidade e serei forçado a usar minha ferramenta onde não posso divagar e nem dar vida a meus encantos. Ali, sem misericórdia, haverá choro e ranger de dentes.

Volto a sentir meus pés no cinzento e maltratado assoalho. O momento no tempo se foi e sei que outros virão. Não estou no campo esquecido, sei que alguém me observa enquanto produzo meus versos entre as malhadas e Ele é aquele que não está ao alcance dos olhos, que não permitiu que o seu Santo visse a corrupção e de igual forma não deixará que eu sofra o dano da segunda morte.

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