“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

domingo, 1 de abril de 2012

E o pensador...

E o pensador se pôs a pensar. 

Hiper produzir é o que faz de melhor a sua mente privilegiada, para não chamar de poderosa, uma vez que o ilustre analista não se sente a vontade com o adjetivo.

Encontrava-se ele àquela hora do dia em movimento. O coletivo quase vazio se dirigia a uma das partes mais nobres da cidade e o corpo robusto do protagonista se sacudia pelas ruas e avenidas exageradamente marcadas por lombadas. O sacolejar quase que não o incomodava pois, como sempre, sua atenção estava voltada para um impresso. Em seu colo pairava talvez a mais famosa obra de um filósofo francês que, assim como ele, teve sede de saber. Seu humor ao conceber tal relato podia ser comparado ao de Salomão quando da confecção do Livro de Eclesiastes. À medida que passava as páginas ia o peito do quarentão sendo tomado pela compaixão. Teve pena daquele sábio que dispendeu toda a sua existência a procura de uma fonte pura e imaculada de saber e não se deu conta que tal coisa não podia ser encontrada senão naquele que criou todas as coisas, o Deus Todo-Poderoso, a quem o autor conhecera de ouvir falar, mas que infelizmente lhe fora apresentado por uma teologia distorcida, corrompida e prostituída. Pena ter ele se escandalizado e não ter clamado aos céus por sabedoria, pois com certeza a teria recebido. O Livro dos livros nos assegura que o Bom pastor se achega à todo aquele que a ele se achegar e, em seguida, permite ser conhecido face a face.

Ao saltar do veículo tricolor, o pensador se deteve por alguns instantes estudando o cenário a seu redor. Ainda era bem tímido o número de pessoas presentes ali. O céu esboçava um azul intenso sem qualquer mancha de nuvem e o vento trazia as suas narinas um forte cheiro de maresia. 

Sua presença ali tinha um porquê: continuar sua introspectiva viagem; investir em si mesmo sem se preocupar com qualquer retorno financeiro. Era preciso. Era preciso fazer menos inferências e passar às indagações, mas não tinha que inquirir a si mesmo. Poucos eram os seus questionamentos agora. Seu eu cego já não lhe era tão desconhecido. O cientista (caso mereça ele tal título) vinha gozando de certa satisfação pelos degraus que já galgara, porém seu crescimento dependia agora de esclarecer alguns pontos  em seu círculo social composto por criaturas portadoras de suas próprias patologias. Pensador se compadeceu deles por diversas vezes e em várias ocasiões lhes ofereceu os seus préstimos de amigo. Os resultados foram variados e indignos de considerações, contudo o aprendiz de sábio não deixou de aprender algumas lições.

Sua pele hoje exibe o viço da liberdade; da liberdade de alma, da quebra das correntes da opinião alheia. Quão satisfatório vinha sendo não temer o incompreensivo e de tal maneira o que se revoltou com suas virtudes. Ele, que um dia foi menino, agora cresceu e que um dia foi cego, mas agora vê.

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