"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tragicomédia

(Publicado na coletânea "A Miragem" lançada em 1997)





Severino encontrava-se rindo. Grande novidade! Severino nunca parava de sorrir. Estivesse chovendo ou fazendo sol. Não tinha esposa, filhos, família, escola de samba ou sequer time de coração. Seus colegas diziam que era por isso que ele vivia tão feliz: nenhuma dessas coisas o aborrecia. O mesmo não podia se afirmar do Zé Raimundo. Como sofria o pobre! Seu time nunca ganhava, sua esposa vivia grávida, seu salário nunca aumentava. Encontrava-se sempre carrancudo. Para ele, a tarefa mais difícil do dia era chegar em seu ambiente de trabalho e encontrar o Severino com aquele maldito sorriso no rosto. Que tortura! Na mente do Zé, Severino só vivia para atormenta-lo. Não só com aquela cara de feliz, como também com as perguntas de sempre: E a família, Zé? "Crescendo!" "E o time, Zé?" "Perdendo". Essa era a sua rotina: fazer carranca e odiar o Severino.

O tempo foi passando, até que um dia o chefe chamou o Zé para conversar. Sabe como é a situação, os clientes reclamando da carranca do Zé. Demitido por fazer carranca?! E os filhos para criar, como fica?! Por que o Zé Raimundo?! Por que não o Severino?! Severino não traz problemas pro trabalho. E que problema o Severino tem?! Não houve jeito. O Zé foi mesmo despedido.

Severino ficou  sabendo da demissão do Zé. Sentiu pena. Na hora da saída, barrou-o à porta e, evidentemente, sorrindo, tentou consolar o "amigo". Recebeu um murro na cara como resposta. Caiu e mesmo no chão, foi agredido novamente com um chute. Levantou-se cambaleando, pediu clemência, desculpou-se, levou mais porrada e mais chutes. Tombou novamente inerte. O Zé tocou-o: morto. Pela primeira vez, o Zé sorriu.

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