“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Filosofia de amar

O pensador refletia em meio a penumbra. Julgava ele que a escuridão lhe potencializava o processo cognitivo. Barriga para cima, braços cruzados sobre o peito, olhos fixos no teto. Pensava nela. Vez por outra um prolongado suspiro lhe aliviava o enfado da alma. Curtia a dor da saudade. A solidão, deitada a seu lado, procurava chamar-lhe a atenção, mas o Pensador ali deliberava como cientista. Lera em algum lugar que amar o próximo estava condicionado ao amor a si mesmo, entretanto não era isso que se via. Milhares de enamorados atentavam contra a própria vida todos os dias ao passo que outros tentam colher figos de amendoeiras, amarrando sua curta existência à de outros entes calejados de maus costumes.

"Qualquer coisa é melhor do que isso." - sussurrou-lhe a mulher sem face agora deitada de lado a encara-lo.  Pensador ignorou-lhe a assertiva. Nada podia fazer para arranca-la dali, porém reservou-se o completo direito de ignora-la. Estava só porque recusara-se a encarar uma sina pior que a de Prometeu: violentar ele mesmo o seu eu todos os dias com vistas a manter a seu lado a perfeita figura da ingratidão. Aspirava ele àquela hora poder quantificar tão grande paradoxo - o bem de alguém em detrimento de outrem. Tal tarefa era para ele semelhante ao ato de intentar fazer um omelete sem quebrar os ovos.

Sobre o amor está escrito que este é sofredor, é benigno; não invejoso; não leviano, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, Não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta e, partindo dessa premissa, considerava- se aquele homem de meia idade um exímio amante, contudo sua "perfeição" não tinha lugar ou prestígio neste mundo. Sua companheira, tão logo se viu livre, partiu para dedicar-se (para não dizer se condenar) a alguém que nada mais faz senão afligir-lhe dor. É hipócrita qualquer afirmação em contrário. Não se busca mais quem lhe faça o bem ou quem lhe conceda amor e respeito. A moda é amar a quem lhe cospe na face, a quem lhe esmaga o coração com atitudes desqualificadoras, a quem não lhe exalta as virtudes. É hipócrita, de igual forma, a busca pela paz e pela honestidade se a desavença é aquela que se destaca no horário nobre, se a iniquidade, o adultério e a desonestidade mantém cativos milhões de espectadores ávidos em testemunhar suas peraltices e vibrar com suas conquistas. Pensador enojava-se ao passo que apiedava-se de tão enorme gama de indoutos, livres-adictos-cativos-escravos de uma sociedade moribunda, que preconiza a vilania.

"Pobre filosofia de amar essa!" - bradou ele em um misto de revolta e agonia. "Pobre filosofia mundana." - tornou a bradar, mas não com a mesma intensidade do primeiro, pois chorava. Soluços se propagavam ante a ausência de luz, a incompreendida e temida escuridão.




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