“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Sertanejo


Com o rubro céu, chega a tardinha. Espanta a passarada, a primeira aragem da noite.

Junto com as malhadas, volta o sertanejo da lida. O chapéu de palha desfiada esconde o cabelo lisinho. O sorriso é desfalcado de alguns dentes e um tanto rouca sai a sua voz ao entoar a primeira moda: é hora do comércio fechar, hora de chamar a criançada para o banho, hora de o sino badalar em anúncio à missa; e ele não vê a hora de se aconchegar nos braços de sua Rosa. Ele sabe que a encontrará a sua espera, com a janta quentinha à mesa, perfumada e com o cabelo bonito para ele notar.

Rosa é dona de casa caprichosa. Levanta com as galinhas, põe a água do café e enquanto a chaleira não chia, ela faz seu asseio. Asseio feito, ela côa o pretinho e mistura a farinha. Cuscuz já cheirando ela acorda o marido, vai labutar com os meninos e assim se vai a manhã. De tarde é costura até a hora de aprontar a janta.

Depois de todo mundo recolhido é que a Rosa se deita, mas não antes de tecer seu rosário. O sertanejo, não muito crente, ouve quietinho as sussurradas preces de gratidão pelo pão daquele dia, pela saúde das crianças, pelo bebê novo da vizinha, pela força nos braços para trabalhar. Passado esse momento, o sertanejo se vira e a Rosa, que é do dia, dá lugar a Rosa que é só dele. Rosa de doce cheiro, bom cheiro, agora vestida apenas com seus cabelos. Ele a toma e a ama até quando o galo canta em anúncio à primeira vigília. O amor se encerra trazendo as estrelas para mais perto e o casal junto adormece.

Ao raiar do dia, beija o sertanejo em despedida a sua amada e parte para o trabalho acompanhado de sua viola. A cantiga agora chama-se felicidade – versos que ele mesmo rabiscou.

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