“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Alice à janela


Alice serviu-se de uma caneca de café e foi degusta-la á janela. O ocaso era seu momento preferido do dia, não só pelo amarelo-rubro de que se pintava o céu. Era a hora do rush, momento em que as principais vias da cidade se tornariam um imenso lençol de luzes vermelhas. Com um risinho no canto da boca, Alice ponderava ser ela a única pessoa a ver poesia naquilo, mas era o jeito Alice de ser: viver à margem do comportamento urbano. Para ela era prazeroso sentir o cheiro do mar ao cruzar a Avenida Contorno, mesmo com o coletivo lotado.

Terminada a bebida, a mulher depositou a caneca a seus pés e prosseguiu em apreciar a paisagem. Residia em um bairro classe média e àquela hora as cenas mais frequentes eram os pais de família retornando de mais um dia de labuta e a molecada, sempre aos bandos, voltando da padaria. Vislumbrar aquelas embalagens brancas provocava-lhe um sentimento nostálgico – fora criança no tempo em que os sacos de pão eram de papel. Também em sua época, professores eram mais respeitados, dava-se valor à virgindade e não se pensava em transformar sandices em lei. Essa conjectura, tal como outrora, de igual modo a fez recordar-se de que houve um tempo em que a filosofia de alguém se pautava muito mais nas coisas que dizia do que em seu comportamento. E o que dizer do falar?! “Ah, o falar!” – suspirou ela – Arte tão deficiente entre aqueles que formam os atuais grupos de referência. Como seriam tais pessoas aos olhos de Aristóteles, Demóstenes e Cícero, famosos oradores? Verbosidade, aliás, assim pensava Alice, seguindo a mesma linha de raciocínio, era a menor das preocupações da sociedade atual. Carecia-se mais de valores. Importantes pilares da sociedade vêm sendo removidos sob a desculpa de que faz necessária a quebra de paradigmas e os que percebem o embuste vem sendo perseguidos, tachados de retrógrados intolerantes, preconceituosos; jogados aos leões pela mídia.

Um dia, alguém disse que os laços estavam muito apertados e é verdade. É só fazer um pequeno tour pela História e lá constatar que gerações inteiras foram, por assim dizer, “castradas” por causa do advento de ideologias embasadas em distorções da verdade, convenientemente vendidas como modelos de moral e bons costumes. As motivações para tais práticas foram, sobretudo, políticas e algumas delas infelizmente perduram até hoje.

Alice sentia-se indefesa e impotente diante de tal quadro ao passo que pensava se realmente havia o que ser feito, pois o mesmo povo que clama por justiça, tem sede de sangue, o mesmo povo que exige honestidade por parte de seus parlamentares tem por “otário” o seu semelhante que se recusa a participar daquele “negociozinho”, que por mais insignificante que pareça ser, não perde seu cunho escuso.

Se Alice desafiada fosse a nomear tal fenômeno e porque não dizer enfermidade que tem empurrado a coletividade ao abismo, não precisaria inventar nenhum vocábulo novo. Tratava-se de hedonismo e nada mais.

Cansada de fazer inferências, a mulher de estatura mediana decidiu deixar a janela, porém deteve-se mais um pouco por conta de escutar alguém gritar o seu nome. Seu rosto irradiou-se ao ver que se tratava de sua vizinha da frente que, após as gentilezas de praxe, perguntou-lhe quais seus planos para aquela noite, entretanto tomar ciência dos mesmos causou-lhe espanto, pois não entendeu o que levou a outra a marcar um compromisso daquela natureza bem na hora da novela.

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