“Cada novo amigo que ganhamos no decorrer da vida aperfeiçoa-nos e enriquece-nos, não tanto pelo que nos dá, mas pelo que nos revela de nós mesmos.” (Miguel Unamuno)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A romancista


Sentada à beira do batente de mármore, uma moça borda. De letra em letra, segue ela a tecer seu folhetim. Os meninos passam e fazem troça; a preta enxerida se aproxima e espicha o olho. Margaridinha abraça o manuscrito e faz careta. A cativa se ofende e amaldiçoa-a por todos os seus deuses. A donzela de pele de porcelana, contudo, desdenha e após um muxoxo ergue-se empinando ainda mais o fidalgo nariz. Depois disso, toma a direção dos fundos da propriedade em busca de um novo retiro e escolhe então refugiar-se debaixo de um ipê lotado pela primavera de cachos de flores amarelas, sua cor preferida. Aos seus pés repousa uma relva verdinha onde a moçoila se acomoda. Suas finas feições são de menina, mas de seus poros emana um “quê” de mulher.

Ocupada?! Sempre! Seus delicados dedos, constantemente manchados pelo nanquim não paravam quietos. Somente ela conhecia o conteúdo daquelas páginas: o seu mundo, só seu. Aprendeu Margaridinha com seu querido avô que cada pessoa é responsável pela lavratura de seu destino e desde então se ocupava de tal intento. Ambicionava construir o seu próprio conto de fadas e dentro dele encarcerar-se toda vez que sua dura realidade feminina assim o requeresse. O quanto já dispendera de seu tempo com vistas a concluir o ofício não se sabia, entretanto Margaridinha não tinha pressa. Em quase uma década e meia de vida já perdera a conta de quantas vezes resolvera começar do zero, por capricho ou por simplesmente entender a diferença entre o correto e o corrigido.

Antes da lição aprendida, a donzela ambicionava estudar e tornar-se um bacharel, como seu irmão mais velho, enviado à Europa para tal fim. Porém seus sonhos foram por água abaixo quando sua mãe revelou-lhe que tal regalia era de gozo exclusivo dos nascidos sob o sexo masculino e que às fêmeas nada mais restava senão empreender com maestria nos assuntos domésticos. Margaridinha ficou triste por dias a fio e só voltou a alimentar-se por imposição paterna, que se valeu ainda da séria ameaça de encerra-la em um convento.

Alguns meses depois, arrumaram-lhe um noivo. O rapaz era pouco atraente, mas filho de um nobre muito rico, o que para seus pais já eram atributos suficientes. Margaridinha odiava-o com todas as forças de seu coração, todavia disfarçava tal emoção sob os desmandos da etiqueta. Preferia amar o seu soldado, o homem de seus escritos, sua cria, sua sina. Seu nome, inexprimível aos lábios da amante, coxeava tal e qual sua alma ferida a vagar errante pelo mundo. Mal sabia ele que a romancista estava prestes a cruzar o seu caminho com o de sua heroína, aquela que estava fadada a recebe-lo em seus braços, afagar-lhe os escuros cabelos e assegurar-lhe que a noite se foi e, com ela, o choro, entretanto o vivido homem, a princípio não crerá ser alguém de tão tenra idade aquela que irá lhe prestar os devidos méritos as suas virtudes. Resistirá ele bravamente ao que lhe ordena o coração e os encantos de sua amada, ora lhe serão aprazíveis, ora repugnantes. Margaridinha deveras emocionou-se quando sua fértil imaginação a remeteu a citada sinopse, contudo a tempestade que antecederia a bonança não a impedia de invejar a protagonista. Punha-se em seu lugar toda vez que a inspiração a tomava, entretanto cada retorno à realidade era doloroso.

O ecoar de seu nome arranca a jovem de seus devaneios. Ela se põe de pé após suspirar impacientemente e se põe a caminhar a passos lentos. A mesma serviçal que a amaldiçoara veio anunciar-lhe a chegada de seu futuro marido. Margaridinha não expressa emoção alguma. Aguardava-o todas as quartas àquele horário da mesma forma que Prometeu esperava a águia que vinha diariamente lhe devorar o fígado.

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