"O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós." (Clarice Lispector)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Memórias de menino



Eu tinha entre seis e sete anos quando me entendi por gente. Sou o mais velho de uma ninhada de três. Tenho uma irmã do meio que vive no mundo dela e uma irmã caçula que nasceu com uma “porção de menino.” Digo isso porque ela sempre estava disposta a brincar comigo não importando o quão masculino o folguedo fosse. Desfrutamos grandes aventuras juntos jogando bola, empinando pipa ou viajando por esse Brasil afora em nosso ônibus mágico, que na verdade era o pedal da máquina de costura de nossa mãe.
Eu vivia minha vidinha normal de menino até que um dia minha mãe me acordou cedo e me mandou tomar banho, pois eu tinha que ir à escola. Eu não sabia o que escola significava e estranhei o fato de ela não ter acordado também as minhas irmãs uma vez que saíamos sempre juntos, porém não a questionei, só obedeci.
Na hora de me vestir, outra surpresa: ao invés de minha roupa de domingo ela me trajou com um conjunto branco e vermelho e no lugar do meu kichute, um par de congas. Era segunda-feira e o sol brilhava tímido no céu. Por onde passávamos, víamos a agitação das outras pessoas que, assim como nós, estavam felizes pelo astro rei ter decidido sair de detrás das nuvens. A cidade onde morávamos era muito fria e chuvosa por isso toda vez que um traço azul aparecia no céu era motivo de festa para nós.
Ao chegarmos na tal escola, minha mãe enfiou um boné na minha cabeça. Ele era vermelho igual ao short do uniforme que eu usava. Sem pensar duas vezes, eu o arranquei de cima de mim, pois sempre detestei qualquer coisa por sobre o meu crânio. Ela contava que era uma luta manter minhas orelhas aquecidas, na época em que eu era bebê, já que eu não gostava de usar gorro.
Minha atitude me valeu uma baita bronca e o alerta de que não me era permitido ficar sem o boné dentro da escola assim como não podíamos conversar durante a missa. À contragosto, enterrei o maldito boné de novo em minha cabeça. Depois disso, uma senhora nem gorda e nem magra trajando um avental azul claro veio nos receber. Ela sorriu para mim e me perguntou meu nome e, ao responder Reinaldo, ela beijou-me a testa e me desejou boa sorte. Em seguida, nos conduziu pelo interior de um corredor mal iluminado. Depois dele vinha uma área de convivência cujo piso era cor de grafite. Nós a atravessamos e fomos parar junto a uma porta de duas abas que dava acesso a um outro corredor, bem menor do que o primeiro. Caminhamos dentro dele até pararmos em frente a uma porta azul que se escancarou tão logo a funcionária bateu. De dentro dela surgiu uma mulher branca e alta, de cabelos castanho médio e olhos claros. A mulher de avental apresentou-nos e foi-se embora arrastando as gastas chinelas de couro. Em seguida, a mulher de olhos claros e minha genitora trocaram algumas palavras depois voltaram a atenção para mim. A estranha elogiou meus dotes físicos e, agachando-se perante mim, quis saber como me chamava. Eu respondi extasiado, pois até então não havia notado o quanto era bela. Seu nome era Natália, como uma de minhas tias.
Terminado aquele primeiro momento, ela nos conduziu para dentro do recinto e, após a entrada de minha mãe, lacrou novamente a porta. Estavam ali aproximadamente uma dezena e meia de crianças vestidas iguais a mim. A maioria delas chorava e eu me perguntava por que, mas depois comecei a achar que, assim como eu, elas deveriam estar odiando, aquela história de ter que usar boné.
Passados alguns instante, minha mãe veio dizer-me que já ia embora e que viria me buscar mais tarde. Eu fiquei quieto assistindo D. Alice deixar a sala e depois a mulher bonita, de quem recebi a ordem de tratá-la como professora, veio a mim e me pediu para escolher um lugar para sentar. Eu tirei minha mochila improvisada das costas e sentei próxima a uma garotinha parecida com minha prima Nininha. Ela sorriu pra mim e notei que ela estava banguela. Do outro lado tinha um garotinho sardento que quando percebeu que a sósia de prima Nininha me fazia um gracejo, começou a mostrar-lhe a língua. A criaturinha de bochechas rosadas que depois descobri chamar-se Rebeca, devolveu-lhe a “gentileza”. Os dois ainda ficaram se estranhando um bom tempo até que a professora mandou a gente sentar no chão em círculos a fim de ouvirmos uma historinha. Rebeca me puxou para sentar junto dela e eu me deixei levar feito aqueles vira-latas que às vezes seguem a gente na rua. Pra pirraçar, o garotinho sardento nos seguiu e achou de sentar-se junto a nós e a hostilidade entre os dois voltou a se manifestar, desta vez debaixo dos atentos olhos da professorinha de olhos da cor do mar. Ela separou nós três e fiquei o resto da aula me sentindo estranho por causa disso.
No dia seguinte, voltei sabendo finalmente o que significava ir à escola e esse saber me deixou bastante contente. Até então eu via meu pai passar grande parte do fim de semana devorando livros que não tinham figuras me levando a imaginar o que tinha de tão especial neles. Descobri que indo ao colégio eu iria aprender a ler e daí fui mais feliz.
Encontrei meus dois coleguinhas acomodados nos mesmos lugares de outrora. Eles não prestaram muita atenção em mim, pois estavam ocupados trocando ofensas.
Assentei-me e tirei do bolso uma bala que Tia Natalinha havia me dado no sábado. Os dois pararam de se agredir no instante em que me viram desembrulhando a guloseima. Sorri para os dois e enfiei o doce rapidamente na boca. Os Eles se entreolharam frustrados e se ajeitaram em suas cadeiras. Desse dia em diante eu passei a buscar todo tipo de subterfúgio para pôr um fim a rixa dos dois. Depois de um tempo, comecei a usar as palavras mesmo, mas as coisas só entraram nos eixos no dia em que Eugênio também perdeu um dente, dando a Rebeca a oportunidade de pagar-lhe na mesma moeda todo o constrangimento por que passou.
Entrar para a escola também elevou o meu moral na vizinhança. A maioria dos meus amigos não passavam de pirralhos que não haviam atingido a idade escolar mínima e eu podia ver a inveja estampada em seus olhos ao me ver passar uniformizado. Minha mãe exibia orgulhosa minhas notas e as congratulações por escrito que recebia por conta de meu bom comportamento, contudo seu contentamento crescia inversamente proporcional a meu desapontamento. Desde o primeiro dia de aula eu pelejava em decifrar as histórias armazenadas nos impressos que lotavam a estante da sala, mas as cores, formas e vogais que a professora Natália me ensinava em nada me valiam nessas horas. Esse desagradável sentimento me torturou até que um dia desatei a chorar e papai veio em meu socorro. Sentado em seu joelho, confessei-lhe o quanto não saber ler me chateava e indaguei-lhe o por que de as lições de minha linda mestra não me capacitarem para a tarefa. Em resposta, o velho Juarez me beijou carinhosamente e me incentivou a continuar sendo um aluno aplicado, pois conhecer as vogais e, posteriormente, todo o alfabeto me tornariam hábil a formar sílabas e, depois destas, as palavras. Ele não me explicou o que é uma sílaba, porém isso em nada atrapalhou o efeito calmante que sua explanação me causou: daquele dia em diante, esqueci-me dos livros de adulto e voltei minha atenção para aquilo que eu realmente dominava: as cores, formas e vogais.
A realização de meu sonho aconteceu um ano depois, em 1981. Tornei-me assíduo freqüentador da biblioteca da escola e era como se os livros de papai tivessem deixado de existir. Lembrei- me deles por acaso, no dia em que minha mãe recebeu a visita de uma amiga que há tempos não via. Ela jubilou-se quando D. Alice lhe participou minha evolução escolar, e, para testar-me, retirou um documento alaranjado de dentro da bolsa e me pediu para ler o que estava escrito dentro de um retângulo na margem inferior da folha.
Quando terminei, ela bateu palmas e me tascou um beijo molhado. Depois disso, perguntei a mamãe se podia voltar para o meu quarto onde minha irmã caçula me aguardava a fim de continuarmos nosso duelo de karatê. No caminho, a retrospectiva mental do episódio recém vivido me fez recordar das fileiras literárias de papai. Um radiante sorriso me enfeitou o rosto, pois tive a sensação de que já estava pronto para algo mais “adulto” haja vista eu ter conseguido ler uma fração do documento da amiga de minha mãe. Passei o olho em todos eles auxiliado pelo meu indicador direito e escolhi o mais fino da última prateleira: “O Grande Gatsby”. Tinha eu oito anos de idade.

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