sábado, 30 de junho de 2012

O Consolo do Espírito Santo

A palavra consolo é definida no dicionário como o ato ou efeito de trazer conforto; acalento. Os cristãos entendem mais o consolo do Espírito Santo como sendo aquela ajuda recebida nos momentos tristes.

Mas o que realmente vem a ser o consolo vindo da parte do Espírito Santo? Vejamos o que a Bíblia diz em:

a) Jo. 14-16;17: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós."

b) Jo. 14-26: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito."

Agora analisemos as palavras de Jesus: na alternativa a, Cristo revela quem é o Espírito Santo e o mais interessante é o uso da expressão "outro Consolador". Em Matheus 11, a partir do verso 28, Jesus faz um convite para que venhamos a Ele e, dentre as promessas que faz, está a de trazer alívio e conforto. Assim sendo, podemos concluir que ele também tem o papel de Consolador. Depois disso, Ele se refere ao Espírito como sendo o "Espírito da Verdade" e, outra vez, mais uma lição nos é passada: se Ele diz em Jo. 14-6 que é o Caminho, a Verdade e a Vida, então de quem é o Espírito senão dele mesmo? Outro fato interessante é a exclusividade desse Espírito. Jesus deixa claro que o mundo não pode recebe-lo porque não O  vê nem o conhece. Somente aqueles que são de Deus tornam-se habitação de seu Santo Espírito.

O item b, neste caso, nos é mais revelador, porque nos ensina em que consiste, precipuamente, a presença do Espírito Santo em nós. Cristo diz: "... vos ensinará todas as coisas." ou seja, primeiramente, nos educar, instruir, capacitar, etc. E mais adiante ele completa: "...e vos fará lembrar de tudo quanto tenho vos dito." Eureca! Este é o ponto chave! O Espírito Santo nos consola toda vez que nos faz lembrar das Palavras do Senhor, de suas promessas, de quem somos por intermédio de Cristo e isso ocorre com mais intensidade quando estamos passando por diversidades. Isso nos renova, nos fortalece, nos alivia, nos faz perceber que não estamos sós, que há um Deus maravilhoso e poderoso a labutar por nós. Sermos instruídos em justiça pelo Espírito do Senhor e depois por Ele mesmo sermos lembrados de Sua grandeza é o que nos faz seguir adiante. Aleluia!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Aquele Estranho

Por entre esses muitos caminhos da vida, conheci alguém. Seu nome eu nunca soube. Ele era mais velho do que eu. Sua pele era parda, seus cabelos lisos e escuros lhe caiam à altura do pescoço. Era alto e magro, mas atraente. Seus olhos: verde-esmeralda.

Nossa amizade começou com uma troca de gentilezas, dessas corriqueiras entre estranhos. Foi aí que nossos olhares se cruzaram e algo diferente nasceu em meio a uma série de encontros nada casuais. Ficamos um bom tempo nos admirando de longe. Meus olhares eram furtivos, os dele, diretos. Assim ficamos até que ele veio a mim, como convém aos cavalheiros.

Conversávamos de tudo um pouco, mas era a Literatura que dominava nossos diálogos. Ele era graduado e confessou-me dias mais tarde que dispendera dez anos de sua vida lecionando, mas que agora não mais possuía pupilos pela força de um contrato. Seu muito saber me constrangeu no princípio, contudo depois fui relaxando; a maneira pela qual ele expunha seus dotes era tão simples e envolvente que desconhecer se tornou uma dádiva. Era prazeroso ve-lo gesticular ao passo que acabava com minha ignorância e de igual modo ver os movimentos harmônicos de seus lábios bem feitos. Em diversas ocasiões desliguei-me do que ele dizia a imagina-los por sobre os meus; sua maciez e gentileza ao beijar-me. Depois a razão chamava de volta à realidade a mente vadia.

O cair da tarde era a hora de dizer adeus; hora de voltar para nossos mundos até o encontro seguinte. Brincava ele que nos separar por algumas horas era imperioso a fim de termos o que narrar depois. Eu sorria tímida. Cada despedida me custava uma parte da noite em vigília, a ruminar nossas conversas, a relembrar cada gesto, cada frase com o intuito de me provocar riso, cada expressão de afeto e admiração.

Meu coração me indagava se estava eu apaixonada por aquele estranho, mas que dizer ao coração? Que sensatez pode haver em quem tem o amor como senhorio? Não  podia racionalmente com ele contender. Lhe oferecia sempre o silêncio como resposta.

Nossos dias ao todo foram cinquenta e sete. No quinquagésimo oitavo, nos separamos, porque assim quis ele. Recebi das mãos de um garçom em nosso sagrado lugar um manuscrito que até hoje repousa no interior do compilado que guarda os versos de Cecília, os meus preferidos. O papel era comum, a caligrafia artística. Li a primeira sentença e tornei a dobrar o papel. Não! Não era verdade! Eu não podia aceitar! Tive ímpetos de atira-lo longe. Quis amassa-lo, com raiva, mas meu músculos tesos pelo sangue congelado em minhas veias me foram um empecilho. Ofegante, pensei que ia desfalecer. Uma nuvem escura já pairava em frente a meus olhos quando uma voz feminina perguntou-me se eu passava bem. Engolindo em seco e sorrindo forçadamente menti á gentil mulher.

Mais do que depressa fugi dali. Refugiei-me em um canto e levei o manuscrito ao nariz, porém nada aspirei além do cheiro da celulose. Que ódio, que dor! Levei o escrito ao peito e ali o mantive por sobre o meu coração até a torrente de lágrimas cessar e com os olhos embaçados o reabri. Sim, a verdade estava ali: o mesmo papel comum, a mesma caligrafia artística, a narrar o seu adeus:

Caríssima,


          Sinto profundamente em assim tão covardemente me despedir. Não suportaria ver em teu rosto qualquer expressão de dor depois de ter sido iluminado tantas vezes com a luz do teu sorriso.
             Não quero que te sintas culpada por coisa alguma, pois mal nenhum me causastes. A verdade é que sou um vilão, um pérfido, que não merece tua amizade e muito menos o teu amor. Sim! Sei que  me amas e eu também te amei desde o primeiro momento, quando teu rosto de anjo remeteu-me a sensações que nunca antes experimentei por mulher alguma. Nunca perguntei teu nome, entretanto estou certo de que é tão lindo quanto a tua voz, ora de menina, ora tão mulher. Insisti em encontra-la porque demorei de me dar conta de que tu não eras uma miragem, fruto da loucura de minhas muitas letras e foi nesse instante que se iniciou o meu delito, pois pareço vivo, mas estou morto. Uma silenciosa enfermidade está me tomando a vida e contra ela já desisti de lutar. Decidi viver o resto de meus dias de maneira inconsequente uma vez que a medicina já foi vencida e vi que me será mais digno cessar de existir, quem sabe, como um boêmio e, assim, quando finalmente cair morto, seja minha aparência menos asquerosa que a do moribundo que aguardou a senhora do destino de todos nós em cima de um leito.
          Melhor será para ti, minha querida, nos separarmos agora, para que teu sofrimento seja menor. É o mínimo que posso fazer. Melhor teria sido não ter eu te causado incômodo nenhum, contudo não posso fazer voltar o tempo. Espero que me perdoes. Tu tens uma vida inteira pela frente e muitos sonhos a sonhar. Não sei para onde vou, mas quero que saibas que não a esquecerei minha Iracema, minha Isolda, minha Julieta.
            Termino aqui permanecendo assim, inominável a fim de que seus lábios não sejam maculados pelo nome de alguém que não merece lembrança. Adeus.


Dobrei a carta de modo a ficar bem pequenininha e a escondi entre os seios. Voltei para casa e vivi muitos dias de luto pelo meu amor, meu Tristão, meu Romeu, com quem vivi uma eternidade de mil, trezentas  e sessenta e oito horas.

sábado, 16 de junho de 2012

A Era do Conhecimento e a Emburratização

Na década de oitenta, Peter Drucker previu que entraríamos na era do conhecimento e isso é verdade - estamos vivendo nela, mas percebi também que há uma força trabalhando contra o avanço do saber e aqui a denominaremos de "emburratização".

Há quem possa julgar o que Drucker chamou de era do conhecimento como uma coisa contemporânea, mas a emburratização, (termo a que peço licença ao querido leitor para usa-la sem me valer das aspas tal como fiz no título) não. Ela já vem de longas datas, do tempo em que alguém (diga-se sempre) se ocupou em espalhar que o saber e o conhecer é privilégio de poucos, que a ignorância e a felicidade andam de mãos dadas, que estudar é para quem não nasceu bonito e, portanto, não pode ser artista, essas coisas.

O sabido incomoda. Basta que alguém demonstre ter um pouquinho mais de "tutano" para começar a sofrer bullyng de variadas formas. Diante disso, o geniozinho, coitado, em busca de aceitação, decide emburrecer ou se manter na média.

Como foi dito no segundo parágrafo, não são de agora as astutas manobras a fim de manter o povo na ignorância. O dominador sabe que não pode com cabeças pensantes. Vejam por exemplo o que ocorria em nosso país durante a ditadura. Quem se atrevia a pensar diferente era tachado de subversivo e tornava-se alvo de perseguição. Os estudantes de Filosofia, Sociologia ou de qualquer outra "ia" que ensine a pensar, pior ainda! Chegaram até a criar os cursos de nível médio técnico de modo a ninguém precisar (leia-se impedir, evitar...) ir a faculdade.

Refletir a respeito destas coisas me faz indagar cada vez mais que paradoxo é esse: é a emburratização andando em paralelo à indústria do conhecimento e, diga-se de passagem, que força ela tem! Ao ligar a TV, vemos as mulheres frutas, condimentos e répteis, com seus corpos esculpidos disseminando (ou ressuscitando) a cultura da mulher objeto, novelas, os realities besteiras, besteiras e besteiras e outros programas que atentam, afrontam e ofendem nossa inteligência tendo altos índices de audiência para sorte deles e infortúnio nosso. Essas coisas além de alienar, atrai outra sorte de prejuízos.

Estudar, no entanto, continua sendo pré-requisito pra se arrumar um emprego e, consequentemente, ganhar dinheiro. O mercado de trabalho, hoje mais exigente, sempre requereu de nós a qualificação. Diante disso,  continuando o raciocínio ante ao paradoxo citado no parágrafo três: milhões correm em busca do conhecimento que lhes dará o diferencial a fim de conquistar a tão almejada colocação e, diga-se de passagem, não qualquer colocação, e sim à que o esforço seja mínimo e o retorno máximo. Imagino que alguém aí do outro lado acabou de gargalhar e exclamar: "É assim mesmo!". Que se danem os investimentos a longo prazo! Queremos plantar agora e colher ontem!

Veja o que escreveu o filósofo Arthur Schopenhauer, na primeira metade do século XIX:


"Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância para a instrução e a verdade.
... E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e ganhar ares de importantes. A cada trinta anos desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. - Quanto aos estudos feitos simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta." (A arte de escrever, Schopenhauer, 2005, L&PM Editores, pag 19)

Adaptando a passagem acima ao nosso contexto, veja se não é isso que estamos vivendo? Ainda citando Schopenhauer (2005), o que se tem em mente hoje não é a instrução e sim a informação. Busca-se os títulos. A palavra profissional tem perdido seu sentido etimológico. O bom agora é estudar para ser "doutor". Eles estão errados? Em uma análise superficial, não. Para que um saber profundo, genuíno e de qualidade em um mundo que lhe oferece em troca a massificação e a alienação? Pobre de mim e meus "textos cabeça" e que alegria a minha ter quem me leia!

Disse Jesus: "Entrai pela porta estreita porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela". Quem tem ouvidos para ouvir ouça e bem-aventurados são os que leem as entrelinhas. Do contrário, que Deus tenha misericórdia de nós.


sábado, 5 de maio de 2012

Alice

O raiar de mais um novo dia tiraram Alice da cama. Não precisava se dar ao trabalho de se levantar tão cedo, porém Alice apreciava as primeiras horas da manhã. O período de cinco as sete tinha para ela um odor singular. Tudo parecia estar igualzinho às vinte e quatro horas anteriores, mas era um novo dia, uma página em branco aguardando a reescrita; tempo de continuar o que ficou inacabado ontem. Roupas já podiam ser vistas balançando ao varal, a vizinha barulhenta do 7-b já escutava sua música de péssima qualidade, passarinhos se agitavam nos fios de alta tensão e não muito longe dali pneus cantavam.

Vencida a preguiça matinal, a mulher de curto cabelos vermelhos alongou seus magros músculos e se dirigiu a cozinha. Seu desjejum foi um copo bem grande de suco de laranja acompanhado por um sanduíche idem à frente da TV. O programa era legendado, mas a ruiva não prestava muita atenção nas duplas fileiras de diálogos que rapidamente iam e vinham. Ateve-se a estudar a linguagem corporal das personagens ao tempo em que se divertia com suas caras e bocas. Interessante era conjecturar a respeito daquele contexto onde de maneira bem humorada alguém entendeu por bem expor as aventuras e desventuras impostas pela regra do conviver. Da mesma forma era intrigante entender como alguém cercado por tantos podia se condicionar a uma existência solitária. Grande parte das pessoas que conhecia encaixavam-se neste perfil com maestria: seus perfis nas mais baladas redes sociais continham um número expressivo de "amigos", contudo deixavam a desejar no quesito interação.

Crescer para aquela jovem de vinte e cinco anos significou muitas coisas além de atingir 1,72 de altura. Ninguém entendeu quando ela deixou a casa de seus pais, tampouco quando escolheu uma profissão pobre em status, mas assim era Alice. Quem bem a conhecia, sabia que sua ideia de amadurecimento baseou-se em não seguir o curso desse mundo; não se dobrar diante da ditadura da estética ou qualquer outra coisa que significasse cerceamento de liberdade. A tutela do Estado e a obediência, primeiramente as autoridades paternas, já lhe bastavam para aquilo que lhe significava bem comum não beirar ao caos. Sua organização e sistemas eram únicos para infortúnio dos invejosos que nunca se importaram em deixar o cômodo banco da mediocridade.

Alice imunizou-se, sem a mínima ideia de como ou quando, ante as patologias sociais e não se envergonhou em procurar Freud a fim de que este lhe explicasse e desmistificasse as três figuras do seu eu. O resultado foi uma mulher mais forte, mais segura de si e menos preocupada com o que tem dado e recebido. Aprendeu que frutos geralmente não são colhidos imediatamente e que é importante improvisar com aquilo que se tem em mãos.

Dificuldades em se moldar ao que o mundo entende como social ainda existiam, entretanto cada pôr do sol e cada amanhecer significavam novas chances, novas possibilidades, novas maneira de ver e ouvir, de sentir, aspirar. Rico era o terreno a ser explorado e assim Alice se via fazendo ciência. Acreditava em obter sucesso na coletividade em um pequeno universo, à princípio, preço pequeno diante de um bem maior e mais lucrativo, não exatamente significando cifrões. Como todo peregrino nesta terra, era preciso continuar seguindo viagem, parando aqui e ali para descansar até alcançar a Terra Prometida e, é claro, não desprezar a figura dos seres com os quais iria cruzar durante a jornada. Gente de toda parte, de variados povos, línguas e nações; cada um do seu jeito, pisando devagar em terra estranha; forasteiro, profeta sem honra em sua própria casa, mas batalhador.

Ninguém nasceu para viver só e Alice cria que além da bonança no lugar onde mana leite e mel, se uniria aos seus. Outros incompreendidos, rejeitados e órfãos seriam seus irmãos e juntos fariam a diferença. Esse número era bastante insignificante agora, contudo suas esperanças de que este aumentasse com o tempo era enorme. O pobre, o doente, o oprimido, o caridoso, o samaritano e toda espécie de enfermos encontrariam a cura, o aconchego, o alívio, a vida, o pão, e o manancial de águas doces sob os galhos da mesma árvore em que vinha fazendo morada, nascida do mesmo grão de mostarda que outrora fora julgado estéril.

Alice quase não cabia em si mesma. Seus atributos físicos não eram muitos e o choque que causava um paradoxo, pois tanto podia passar invisível como atrair todos os olhares para si. De uma pessoa desse gabarito não se sabia o que dizer e de semelhante maneira o que se pensar, mas caber em si mesma não era nela o ser presunçoso. Fora um bebê mui desejado, mas não ocupara por muito tempo a cadeira de preferida de seus pais. Como toda adolescente teve sua crise de identidade e era incapaz de analisar com qual grau de "maturidade" atingiu a idade adulta. Só sabia que foram tempos difíceis que graças ao bom Deus tinham ficado para trás e hoje, o que ela podia chamar de experiência, julgava que melhor servia se fosse para ajudar o seu próximo sem sensacionalismos. Não importava quantas pedras lhe atirariam. Alice nascera para ser Alice. Ponto final.


domingo, 22 de abril de 2012

O perdão é uma escolha


E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as nossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas (Mc. 11-25;26).


Há um número muito grande de pessoas, de crentes inclusive, que acha que o perdão é uma imensa borracha. Esta, quando necessário, irá agir na parte do nosso cérebro responsável pelo acúmulo de memórias, e "apagar" o mal que esta ou aquela pessoa nos fez. Ledo engano! Isso nunca irá acontecer. Na verdade, aquela lembrança depois de um tempo, deixará de incomodar, contudo devemos fazer uma escolha para que isso ocorra. Sim, devemos escolher que esta recordação cesse de nos atormentar. De outra forma, o perdão não será liberado e passaremos a carregar um ou vários fardos n'alma. Vejamos:

A passagem bíblica que antecede o começo deste relato, nos ensina que, para recebermos perdão, necessário é que também o façamos. A  Bíblia de estudos que utilizo informa que o termo perdoar e seus derivados aparece 62 vezes em diversas passagens espalhadas pela antiga e nova aliança e o exame de algumas delas nos faz notar que algo bom ocorre toda vez que ele se manifesta. Bons exemplos estão em Marcos capítulo 2 dos versos 1 ao 12º e depois um pouco mais adiante, em Lucas capítulo 07, nos versículos de 36 ao 49. No primeiro exemplo, visualizamos a história do paralítico de Cafarnaum. Cristo entende que havia naquele homem faltas a serem perdoadas e antes de lhe ordenar levantar, tomar o seu leito e ir para casa, lhe diz: "... Perdoados estão os teus pecados." Coisa parecida pode ser vislumbrada na passagem citada do livro de Lucas onde se registra o episódio em que uma pecadora unge os pés de Jesus. Note-se que a referida mulher não vinha sendo afligida por um mal físico, porém mazelas psicológicas, resultantes de suas más escolhas lhe tolhiam a paz. Salientemos ainda que ambos os personagens foram alcançados pelo mal por causa do pecado, mas enxerguemos o bem que receberam ao serem remidos. É esse bem que Deus quer que concedamos ao perdoar, e também, de certa forma, usufruir dele, mas como? Novamente, a própria Bíblia Sagrada nos traz a resposta: em Provérbios 4-23. Está escrito: " Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, por que dele procedem as saídas da vida" e, neste mesmo livro, no capítulo 15, verso 13, encontramos: "O coração alegre aformoseia o rosto, mas, pela dor do coração, o espírito se abate." Guardar o coração também significa filtrar o que vai ser alojado dentro dele, se não tal e qual a afirmação do capítulo 15, o espírito ficará abatido. É horrível quando somos traídos, machucados, afrontados e coisas afins, mas é terrível também para nossa saúde quando acumulamos essas raízes de amargura dentro de nós. Tais coisas podem nos levar tanto à morte física quanto à espiritual e se não nos "matar" pode nos condicionar a um estado vegetativo em que estaremos impedidos de viver uma vida em plenitude por causa de tanta sujeira.

Sou cristã há dez anos, mas só entendi que perdoar é uma escolha e não "a grande borracha" anos depois após sofrer uma decepção amorosa. A dor da perda e da traição me atormentou durante dias e neste este interstício de tempo clamei aos Céus por ajuda. Eu necessitava que Deus levasse embora aquela dor, contudo o Senhor, em sua infinita sabedoria, não permite que saiamos de mãos vazias de situação alguma, e através de um livro cujo objeto era as armas espirituais e seu correto uso, ensinou-me essa importante lição. Lembro-me como se fosse hoje: eu estava no ônibus, a caminho do trabalho e, como de costume, aproveitava o tempo do trajeto para ler ao me deparar com esta parte do impresso em que o autor relata uma experiência particular em que resolve perdoar o sócio que o havia passado para trás. Ele ainda passou um tempo torturado pela raiva e pelo ressentimento, principalmente porque o que sofrera deixara-o em péssima situação financeira, mas assim como Jó, ele foi resiliente e prosperou em sua decisão e não tardou para que a recompensa chegasse. Sem pensar duas vezes, fechei meus olhos e disse a Deus que naquele instante eu estava escolhendo desistir do ressentimento para com a pessoa que me traiu, estendendo minha decisão àqueles que o ajudaram na empreitada. Acreditem ou não, mas ao terminar a oração senti uma onda de calor percorrer o meu corpo e me trazer uma maravilhosa sensação de bem-estar. Foi algo tão  especial que fechei o livro e passei o resto da viagem em êxtase. É claro que, semelhantemente ao autor do livro, a mágoa e o ressentimento e tudo mais que nos aflige quando nosso orgulho é ferido apareceram em certas ocasiões para me assombrar, mas toda vez que isso acontecia, eu falava com Deus, por vezes entre lágrimas, que não ia voltar atrás em minha resolução e o Senhor me premiou com a cura. Hoje posso dizer seguramente que liberei perdão para estas pessoas e estas lembranças não me incomodam mais. O perdão não agiu como borracha e sim como antídoto.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Paraíso





Parado em um momento no tempo, tive tempo para sair de mim. Viajei a um lugar paradisíaco e lá encontrei seres mágicos. Uma criança de cabelos amarelos me teceu uma coroa de flores e depois atravessamos um rio cujas águas eram mui cristalinas.

Do outro lado da margem, outros seres fabulosos me fizeram festa e com eles me alegrei até fadigar. Depois disso, dormi entre as estrelas. Meu travesseiro era de nuvens. Não sonhei. Adormeci e despertei ao tempo de uma piscadela. Vi o sol mais amarelo a dar giros pelo firmamento a arrancar gargalhadas dos crisântemos e me pus a pensar que lugar seria aquele. Alguém me respondeu que eu me encontrava em meu interior e aquela era minha literatura. Minha coroa outrora de flores agora era do ouro mais fino e as mais preciosas pedras a adornavam, sim! Ali eu era o rei! Aquele momento no tempo me arrebatou os sentidos e me trouxe para junto de minhas criaturas, meus súditos leais que nunca padeceram tristeza e tampouco conhecem o pranto; um lugar onde o vento canta e as colinas lhe fazem coro, onde o alimento vem da novidade da terra e a chuva pinta a grama de um verde mais forte ressaltando o cheiro bom da natureza e onde a cerejeira dá suas flores na estação certa.

Não desejo eu voltar à realidade onde tenho que usar máscaras. Quero ser eu. Quero cruzar os céus descalço e de calças curtas como em meus folguedos de menino. Quero ser um artesão. Quero tirar da bruta madeira a sua forma. Quero dedilhar a harpa e atrair as musas com minha canção. Quero ver seus sedosos vestidos bailando ao sabor da brisa. Quero contemplar o ir e vir do passaredo nas matas e florestas.

Alguém me toca o ombro e me deparo com meu reflexo. É a razão a me despertar e a insistir que tenho que voltar. O ocaso se aproxima. Logo, pontos vermelhos aparecerão aos pares e se unirão em milhares a fim de cobrir a extensa trilha. Minhas mãos terão que tocar a gélida realidade e serei forçado a usar minha ferramenta onde não posso divagar e nem dar vida a meus encantos. Ali, sem misericórdia, haverá choro e ranger de dentes.

Volto a sentir meus pés no cinzento e maltratado assoalho. O momento no tempo se foi e sei que outros virão. Não estou no campo esquecido, sei que alguém me observa enquanto produzo meus versos entre as malhadas e Ele é aquele que não está ao alcance dos olhos, que não permitiu que o seu Santo visse a corrupção e de igual forma não deixará que eu sofra o dano da segunda morte.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tragicomédia

(Publicado na coletânea "A Miragem" lançada em 1997)





Severino encontrava-se rindo. Grande novidade! Severino nunca parava de sorrir. Estivesse chovendo ou fazendo sol. Não tinha esposa, filhos, família, escola de samba ou sequer time de coração. Seus colegas diziam que era por isso que ele vivia tão feliz: nenhuma dessas coisas o aborrecia. O mesmo não podia se afirmar do Zé Raimundo. Como sofria o pobre! Seu time nunca ganhava, sua esposa vivia grávida, seu salário nunca aumentava. Encontrava-se sempre carrancudo. Para ele, a tarefa mais difícil do dia era chegar em seu ambiente de trabalho e encontrar o Severino com aquele maldito sorriso no rosto. Que tortura! Na mente do Zé, Severino só vivia para atormenta-lo. Não só com aquela cara de feliz, como também com as perguntas de sempre: E a família, Zé? "Crescendo!" "E o time, Zé?" "Perdendo". Essa era a sua rotina: fazer carranca e odiar o Severino.

O tempo foi passando, até que um dia o chefe chamou o Zé para conversar. Sabe como é a situação, os clientes reclamando da carranca do Zé. Demitido por fazer carranca?! E os filhos para criar, como fica?! Por que o Zé Raimundo?! Por que não o Severino?! Severino não traz problemas pro trabalho. E que problema o Severino tem?! Não houve jeito. O Zé foi mesmo despedido.

Severino ficou  sabendo da demissão do Zé. Sentiu pena. Na hora da saída, barrou-o à porta e, evidentemente, sorrindo, tentou consolar o "amigo". Recebeu um murro na cara como resposta. Caiu e mesmo no chão, foi agredido novamente com um chute. Levantou-se cambaleando, pediu clemência, desculpou-se, levou mais porrada e mais chutes. Tombou novamente inerte. O Zé tocou-o: morto. Pela primeira vez, o Zé sorriu.

Deus Atende Desejos ou Necessidades?